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Pr. Menezes - AD Humildes

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ADEFS Assembléia de Deus em Feira de Santana
CETAD Centro Educacional Teológico da Ass de Deus
Professor: Pr José dos Santos Menezes Fone: 3683 1693

INTRODUÇÃO A TEOLOGIA SISTEMÁTICA

A Natureza e Necessidade da Teologia

Até bem recentemente, a Teologia era considerada como a rainha das ciências e a Teologia Sistemática como a coroa da rainha. Mas hoje em dia a maior parte dos cha¬mados estudos teológicos nega a ideia de que ela seja uma ciência, e ainda mais a ideia de que possa ser a rainha das ciências.

James On já dizia há um bom número de anos atrás:
"Todos devem estar cientes de que há nos dias de hoje um grande preconceito contra doutrina ou, como e' muitas vezes chamada - "dogma" na religião; uma grande desconfiança e aversão ao pensamento claro e sistemático a respeito de coisas divinas. Os homens preferem, não se pode deixar de notar, viver em uma região de nebulosidade e indefinição com relação a esses assuntos. Querem que seu pensamento seja fluido e indefinido algo que possa ser mudado com os tem¬pos, e com as novas luzes que eles acham estarem constantemente aparecendo para iíuminá-los, continuamente adquirindo novas formas e deixando o que é velho para trás". James Orr, Sidelights on Christian Doctrine (Comentários sobre a Dou¬trina Cristã) (New York; A. C, Armstrong and Sons, 1909), pág. 3.

Isto é ainda mais verdadeiro hoje do que quando Orr escreveu essas palavras; co¬mo podemos explicar esse estado de coisas?
Orr indica a razão básica: É a dúvida dos dias de hoje quanto a podermos chegar a qualquer conclusão neste campo, que possa ser considerada como certa e final. In¬fluenciada pela filosofia corrente de pragmatismo, o teólogo moderno começa com o dictum de que em teologia, como em todos os outros campos de pesquisa, a crença nunca deve ir além do mero estabelecimento de uma premissa básica; nunca deve ser enunciada como algo considerado fixo e final. Tendo rejeitado a Bíblia como a infa¬lível Palavra de Deus e tendo aceitado a ideia de que tudo está fluindo, o teólogo mo¬derno afirma que nâ"o é seguro formular quaisquer Ídéias permanentes a respeito de Deus e da verdade teológica. Se ele fizer isto hoje, amanhã pode ser obrigado a mudar sua opinião. Por isso, escritores modernos raramente expressam qualquer certeza com respeito a qualquer ideia que não seja das mais gerais em teologia.

Mas graças a Deus, ainda há muitos que não se deixam levar por esta filosofia su¬bliminar, que ainda crêem que há algumas coisas no mundo que são estáveis e perma¬nentes. Eles citam a regularidade dos corpos celestiais, das leis da natureza e da ciên¬cia da matemática como sendo as provas básicas para esta crença. A ciência, como sa¬bemos, está começando a questionar a regularidade até das leis da natureza, mas o crente em Deus experiente vê nessas aparentes irregularidades a intervenção de Deus e a manifestação do Seu Poder milagroso. Ele sustenta que, ao mesmo tempo que a apreensão da revelação divina é progressiva, a revelação em si é tão estável quanto a própria retldao e verdade de Deus. Ele, portanto, ainda acredita na possibilidade da Teologia e a Teologia Sistemática, e ainda as considera tão favoravelmente quanto os antigos o faziam. É patente o fato de que mesmo o moderno estudante que não formula suas crenças teológicas, ainda tem ideias razoavelmente definidas a respeito das questões principais nesse campo. A razão para isso se encontra em sua própria consti¬tuição moral e mental. Falaremos disso quando abordarmos a necessidade de Teolo¬gia; mas precisamos primeiro discutir a natureza da Teologia.

l. A Natureza da Teologia

O termo "teologia" é usado hoje em um sentido restrito e também em urn amplo. É derivado de duas palavras gregas, theos e logost sendo que a primeira significa "Deus" e a segunda "palavra", "discurso" e "doutrina". No sentido mais restrito, portanto, teologia pode ser definida como sendo a doutrina de Deus. Mas no sentido mais amplo e mais comum, o termo vem a significar todas as doutrinas cristãs, não apenas a doutri¬na específica de Deus, mas também as doutrinas que se referem ás relações que Deus mantém com o universo.
Neste sentido amplo, podemos, portanto, definir teologia como a ciência de Deus e Suas relações paia com o universo Para melhor esclarecer essa ideia, precisamos indicar a seguir as diferenças entre teologia e ética, teologia e re¬ligião, e teologia e filosofia.

1. Teologia e Ética. Psicologia lida com comportamento; ética, com conduta. E isto é verdadeiro tanto na ética filosófica quando da cristã. A psicologia indaga o como e o porque do comportamente; a ética, a respeito da qualidade moral da condu¬ta. A ética pode ser descritiva ou prática.
A ética descritiva examina a conduta hu¬mana à luz de um padrão do que é certo ou errado; a ética prática se alicerça na ética descritiva, mas mais particularmente enfatiza as razões para se tentar viver de acordo com tal padrão. Mas, como é patente, de qualquer maneira a ética filosófica se desen¬volve em uma base puramente naturalista e não possui doutrina de pecado, de um Sal¬vador, de redenção, regeneração, e habitação e poder divinos para se alcançar suas me¬tas.
A ética cristã difere bastante da ética filosófica. É mais completa pois, enquanto que a ética filosófica se restringe aos deveres entre homem e homem, a ética cristã tam¬bém inclui os deveres para com Deus.
Além disso, é diferente em sua motivação. Na ética filosófica, o motivo é ou he¬donista, militarista, perfeicíonista, ou uma combinação de todos estes, como no huma¬nismo; mas na ética cristã, o motivo é a afeição e submissão voluntária a Deus. Mesmo assim, a teologia contém muito mais do que aquilo que pertence à ética crista". Inclui também as doutrinas da trindade, criação, providência, a queda, a encarnaçïo, reden¬ção e escatologia. Nenhuma dessas pertence propriamente à ética.

2. Teologia e Religião. O termo "religião" é usado no maior número de maneiras imagináveis, Ë usado para as práticas de feííchisrno na África, para o canto dos Hindus ante o Absoluto impessoal, para o palavrear dos sacerdotes chintofstas e dos mahdis maometanos, para os sistemas grego e católico romano, para a propaganda humanitá¬ria de John Haynes Holmes, e para a adoração e o culto do protestante ortodoxo. Por isto, alguns preferem não usar o termo para a verdadeira fé cristã. Mas esta questão deve ser decidida por uma definição aproximada de religião.
Hegel considerou religião como um tipo de conhecimento; mas ele nâ"o percebeu que o tipo de conhecimento do qual falam as Escrituras inclui nà~o apenas o intelecto, mas também as afeições e a vontade.
Schleiermacher a considerou como sendo apenas o sentimento de dependência, mas se esqueceu que tal sentimento não e' religioso a não ser que possa ser acoplado à confiança em Deus, apropriação dEle e serviço prestado a Ele.
Kant a identificou com a ética. Matthew Arnold pensava que ela era moralidade tocada por emoção. E Henry N. Wíeman diz: "Religião é a aguda percepção que o homem tem do reino de possibilidade inatingida e o comportamento resultante dessa percepção".
Mas nenhuma dessas é adequada. Para começar, a etimologia do termo "religião" é incerta. A derivação que Agostinho fez de religare, "ligar de novo", o homem a Deus, é duvidosa; o mundo pagão tinha "religião", mas não tinha uma concepção tão bíblica da natureza do pecado e da necessidade que o homem tem de redenção quanto é subentendido nesta definição. Mais provável é a ideia de Cícero. Ele o deriva de rele-gere, "considerar", "rever"; em outras palavras, considerar e observar devotadamente, especialmente aquilo que diz respeito à adoração dos deuses. Deste ponto de vista, então, todas as práticas e sistemas mencionados acima se encaixariam no termo "reli¬gião". Mas para Strong, "religião, em sua ideia essencial, é uma vida em Deus, uma vida vivida em reconhecimento de Deus, em comunhão corn Deus, e sob o controle do Espirito de Deus que habita no crente". A. H. Strong, Systematic Theology (Teologia Sistemática) (Philadelphia: The Griffïth and Rowland Press, 1907), pág. 21. Para ele, só há, estritamente, uma religião, a religião cristã. Se adotarmos este ponto de vista, então estaríamos justificados em usar o termo para a fé e culto protestante ortodoxos, mas ao mesmo tempo seríamos obrigados a recusá-lo a todas as outras chamadas "reli¬giões".

A relação entre teologia e religião é a de efeitos, em esferas diferentes, produzidas pelas mesmas causas. No campo do pensamento sistemático, os fatos que se referem a Deus e Suas relações com o universo levam à teologia; na esfera da vida individual e coletiva, eles levam à religião. Em outras palavras, na teologia um homem organiza seus pensamentos com referência a Deus e ao universo, e na religião ele expressa, em atitudes e ações, os efeitos que esses pensamentos - produziram nele.

3. Teologia e Filosofia. Teologia e filosofia têm praticamente os mesmos objetivos, mas diferem bastante no enfoque que dão e no método que usam para atingir es¬ses objetivos. Ambas buscam uma visão completa do mundo e da vida. Entretanto, enquanto que a teologia parte da crença na existência de Deus e da ideia de que Ele é a causa de todas as coisas, com exceção do pecado, a filosofia parte de uma outra coisa dada e cora a ideia de que é suficiente para explicar a existência de todas as outras coi¬sas. Para os filósofos gregos, esta coisa dada era ou a água, ou o ar, ou o fogo, ou áto¬mos em movimento, ou nous, ou ideias; para os modernos, é a natureza ou a mente, ou a personalidade, ou a vida, ou alguma outra coisa. A teologia não apenas parte da cren¬ça na existência de Deus, mas também afirma que Ele graciosamente Se revelou. A filosofia nega essas duas ideias. Baseado na ideia de Deus e no estudo da revelação di¬vina, o teólogo desenvolve suas ideias a respeito do mundo e da vida; baseado na coisa dada e nos supostos poderes a ela inerentes, o filósofo desenvolve suas ideias a respeito do mundo e da vida.

Ë claro, portanto, que a teologia se alicerça sobre uma base sólida e objetiva, en¬quanto que a filosofia se alicerça apenas nas suposições - e especulações do filósofo. No entanto, a filosofia é definitivamente importante para o teólogo. Em primeiro lu¬gar, oferece a ele certo apoio para a posição crista. Kant, na base da consciência, de¬fendeu a existência de Deus, liberdade e imortalidade. Henri Bergson defende a ideia de que os homens adquirem conhecimento através da intuição tanto como através da razão. Vários filósofos têm defendido a independência da mente e do cérebro e têm procurado estabelecer as relações entre eles. O teólogo pode usar tais conclusões filosóficas para reforçar a posição bíblica. Em segundo lugar, revela a ele a incapacidade da razão para resolver os problemas básicos da existência. Enquanto que o teólogo aprecia toda a ajuda real que recebe da filosofia, ele logo percebe que a filosofia nSo tem uma teoria real das origens e nenhuma doutrina de providência, pecado, salvação, e uma consumação final. Como todos esses conceitos são muito vitais para uma ideia adequada do mundo e da vida, o teólogo é irresistivelmente conduzido a Deus e à re¬velação que ele fez de Si mesmo para tratar dessas doutrinas. E, em terceiro lugar, dá-lhe a conhecer as ideias do descrente culto. A filosofia é para o descrente o que a fé cristã é para o crente; e ele se apega a ela com a mesma tenacidade com a qual o crente se apega à sua fé. Conhecer a filosofia de alguém é, portanto, ficar de posse da chave necessária para compreendê-lo e também para lidar com ele. O crente pode não conseguir ir muito longe com o filósofo teórico, mas poderá ajudar aqueíe que ainda não estiver totalmente dominado pelas teorias da especulação.

II. A Necessidade da Teologia

Dissemos acima que mesmo aqueles que se recusam a formular suas crenças teoló¬gicas possuem ideias bem definidas com relaçSo aos principais assuntos da teologia; isto é, algum tipo de crença teológica é necessário. Isto se deve à natureza do intelec¬to humano e as preocupações práticas da vida. Vamos, portanto, considerai brevemen¬te o porquê desta necessidade, pensando particularmente de sua necessidade para o cristão.
1. O Instinto Organizador do Intelecto. O intelecto humano não se contenta com uma simples acumulação de fatos: invariavelmente busca uma unificação e sistematiza¬ção de seu conhecimento. Hocking diz: "Um ser é uma unidade que não pode viver para sempre, ou enfrentar o prospecto de viver para sempre, com desordem mental.
A mente não se satisfaz apenas em descobrir certos fatos a respeito de Deus, do homem, e do universo: ela deseja conhecer as relações entre essas pessoas e coisas e organizar suas descobertas em forma de um sistema.

2. A Natureza Difundida da Descrença de Nossos Dias. Os perigos que ameaçam a igreja vêem, não da ciência, mas sim da filosofia. Nossas universidades, faculdades e seminários estão, na maioria, saturados de ateísmo, agnosticismo, e panteísmo. Alguns deles são unitarianos. Através daqueles que se formam nessas instituições, as escolas públicas, os jornais, revistas, rádios e as muitas organizações sociais, comerciais, políticas e fraternais, esses ensinamentos são infundidos em todos os níveis da vida social. Os mais bem instruídos destes têm um conjunto de ideias relativamente completo com relação às coisas que os interessam mais de perto. Ora, não é bastante citar ver¬sículos isolados para homens que defendem as falsas ideias dos dias presentes: preci¬samos mostrar a eles que a Bíblia é uma solução melhor para seus problemas do que aquela que eles adotaram; que Ela tem a resposta para muitos problemas que suas fi¬losofias nem tentam responder; e que as Escrituras possuem uma visão plena e con¬sistente do mundo e da vida. O homem que não possui um sistema organizado de pen¬samento está à mercê daquele que o tem. Em outras palavras, temos a obrigação de ajuntar todos os fatos revelados sobre um dado assunto ou organizá-los sob a forma de um sistema harmonioso se quisermos enfrentar aqueles que estio profundamente arraigados em algum sistema filosófico de pensamento.

3. A Natureza das Escrituras. A Bíblia é para o teólogo o que a natureza é para o cientista, um conjunto de fatos desorganizados ou apenas parcialmente organizados. Deus nïo achou necessário escrever a Bíblia na forma de Teologia Sistemática; é nos¬sa tarefa, portanto, ajuntar os fatos dispersos e colocá-los sob a forma de um sistema lógico. Há certamente algumas doutrinas que são tratadas com relativa extensão em um único contexto; mas não há nenhuma que seja ali tratada exaustivamente. Veja como exemplo de uma doutrina ou tema tratados extensivamente em uma passagem, o significado da morte de Cristo nas cinco ofertas de Lv, 1-7; as qualidades da Pala¬vra de Deus nos SI, 19, 119; os ensinamentos da onípresença e onisciéncia de Deus no SI. 139; os sofrimentos, morte, e exaltação do Servo de Jeová em Is. 53; a restauração a Israel de sua adoração no templo, e sua terra, em Ez. 40-48; as predições referentes aos tempos dos gentios em Dn. 2 e 7; a volta de Cristo a este mundo e os aconteci¬mentos imediatamente ligados a ele em Zc. 14; Ap. 19: 11 -22:6; a Carta Magna do reino em Mt. 5-7; o desenvolvimento do cristianismo em Mt. 13; a doutrina da pes¬soa de Cristo era João 1:1-18, Fl. 2: 5-11, Cl. 1:15-19; Hb. 1: 1-4; os ensinamentos de Jesus referentes ao Espirito Santo em João 14-16; o status dos cristãos gentios com referência à lei de Moisés em Atos 15:1-29; Gl- 2:1-10; a doutrina da justificação pe¬la fé' em Rm. l: 17 - 5: 21; o status presente e futuro de Israel como nação em Rm. 9-11; a questão dos dons do Espírito em I Co. 12, 14; a caracterização do amor em I Co. 13; a doutrina da ressurreição em I Co. 15; a natureza da igreja em Ef. 2, 3; as cunquistas da fé em-Hb. 11; e o problema do sofrimento no livro de Jó e em I Pedro: Apesar de ser grande a extensão do tratamento dado ao tema nessas mensagens, em nenhuma delas é o tema tratado plenamente, É necessário, portanto, se quisermos conhecer todos os fatos a respeito de qualquer assunto, ajuntar os ensinamentos dis¬persos e colocá-los em um sistema lógico e harmonioso.

4. O Desenvolvimento de um Carater Cristão Inteligente. Há duas opiniões erró¬neas a respeito deste assunto: (1) Há pouca ou nenhuma relação entre a crença de urn homem e seu caráter e (2) a teologia tem um efeito entorpecedor sobre a vida espiri¬tual. O modernista às vezes acusa o crente ortodoxo do absurdo de defender as cren¬ças tradicionais da igreja quando ele vive como um pagão. Seu credo, insiste aquele, não afeta seu caráter e conduta. O modernista, pelo contrário, se dispõe a produzir uma vida boa sem o credo ortodoxo. Como podemos responder a essa acusação? Replicamos que a mera aceitação intelectual de um conjunto de doutrinas é insufi¬ciente para produzir resultados espirituais, e infelizmente muitas pessoas chamadas ortodoxas possuem nada mais que uma lealdade intelectual para com a verdade. In¬sistimos, além disso, que a verdadeira crença, envolvendo o intelecto, as sensibilida¬des e a vontade, não possui um efeito sobre o caráter e a conduta. Os homens agem de acordo com aquilo em que realmente crêem e não de acordo com aquilo em que eles simplesmente dizem crer.

Dizer que a teologia tem um efeito entorpecedor sobre a vida espiritual pode ser verdade apenas se o assunto for tratado como mera teoria. Se for tratado em relação à vida, se ficar claro que cada um dos atributos de Deus, por exemplo, tem uma in¬fluência prática na conduta; a teologia não terá um efeito entorpecedor sobre a vida espiritual; ao invés disso, servirá de guia para o pensamento inteligente a respeito de problemas religiosus e urn estímulo à uma vida santa. Como poderiam ideias plenas e correias a respeito de Deus, do homem, do pecado, de Cristo, da Bíblia, etc., levar a outra coisa? A teologia não apenas nos ensina que tipo de vida deveríamos viver, mas nos inspira a viver dessa maneira. Em outras palavras, a teologia não apenas indica as normas de conduta, mas também nos fornece os motivos para tentarmos viver de acor¬do com essas normas.

5. As Condições para o Serviço Cristão Eficaz. Há em muitas igrejas hoje em dia uma aversão a pregações doutrinárias. O pastor sente que as pessoas exigem algo que seja oratório, que suscite emoções que levem a ação imediata, e que não requeira con¬centração de pensamento. Infelizmente, algumas congregações são assim, mas Cristo e os apóstolos pregavam doutrina (Marcos 4:2; Atos 2:42; II Timóteo 3:10), e so¬mos exortados a pregar doutrina (II Timóteo 4: 2; Tito l: 9). Pregação oratória, tex¬tual ou atual pode prender a congregação ao pregador, mas quando o pregador for em¬bora, o povo vai também. Joseph Parker e T. De Talmadge podem ser citados como homens de grande poder oratório que conseguiram grandes congregações através de sua oratória; mas o City Temple em Londres caiu nas mãos de RJ. Campbell, funda¬dor da Nova Teologia, logo depois da morte de Parker, e o Brooklyn Tabernacle nas mãos de Charles T. Russell e da Sociedade chamada de Watchtower Bible and Tract Society (A Torre de Vigia e Sociedade de Folhetos). Tem sido frequentemente de¬monstrado que é apenas na medida em que as pessoas forem completamente instruí¬das na Palavra de Deus que elas se tornarão cristãos firmes e trabalhadores eficazes por Cristo. Há, assim, uma relação definitiva entre a pregação doutrinária e o serviço cris¬tão eficaz.


A Possibilidade e Divisões da Teologia

Dissemos no capítulo anterior que os modernistas não escrevem obras sobre Teo¬logia, especialmente sobre a Teologia Sistemática, por crerem que não podemos nunca chegar a qualquer alto grau de certeza nesses assuntos. Temos, entretanto, em oposi¬ção a esta opinião, mantido a opiniã~o de que a Teologia, mesmo a Teologia Sistemáti¬ca, e' não apenas possível mas muito necessária. Apresentaremos agora a prova em fa¬vor da possibilidade da teologia e então indicaremos as divisões comuns da Teologia,

A POSSIBILIDADE DA TEOLOGIA

A possibilidade da Teologia advém de duas coisas; A revelação de Deus e os dons do homem. A revelação de Deus se faz de duas formas: geral e especial; os dons do homem são de dois tipos: mentais e espirituais. Vamos estuda-los com algum cuidado.

I. A Revelação de Deus

Pascal falou de Deus como um Deus Absconditus (um Deus escondido); mas afir¬mou que este Deus escondido se revelou e portanto pode ser conhecido. Isto é verda¬de. Certamente, nunca poderíamos conhecer a Deus se Ele não Se tivesse revelado a nós. Mas o que queremos dizer com "revelação"? Para nós, é o ato de Deus pelo qual Ele Se mostra ou comunica verdade à mente; pelo qual Eie torna manifesto as Suas criaturas aquilo que não pode ser conhecido de nenhuma outra maneira. A revelação pode ocorrer através de um ato único, instantâneo ou pode se estender por um longo período; e esta comunicação de Si Próprio e de Sua verdade pode ser percebida pela mente humana em vários graus de plenitude.
Precisamos abordar a revelação primeiro para provarmos a possibilidade da teologia. Falando de maneira geral, há duas espécies de revelação: Geral e Especial. Vamos considerá-las brevemente.

1. A Revelação Geral de Deus. Ela é encontrada na natureza, na história e na consciência. E comunicada por meio de fenómenos naturais que ocorrem na natureza ou no decorrer da história; é endereçada a todas as criaturas inteligentes de modo geral e é acessível a todas; tem por objetivo suprir a necessidade natural do homem e a per¬suasão da alma para buscar o Deus verdadeiro. Cada uma das três formas desta revela¬ção merece uma breve consideração.

(1) A Revelação de Deus na Natureza. Todos os naturalistas que rejeitam a pró¬pria ideia de Deus e afirmam que a natureza é auto-suficiente e auto-expü cativa não vêem, é claro, revelação alguma de Deus na natureza. Tampouco os panteístas real¬mente vêem qualquer revelação de Deus na natureza. Alguns deles identificam Deus com o "Todo", o "Universum", e "Natureza"; outros falam dEle como o Eterno Po¬der de Energia que produz todas as mudanças no mundo dos fenómenos, e ainda outros, como a Razão que se externa a si própria no universo. Já que todos eles possuem uma visão necessitaria do mundo, não encontram revelação alguma de um Deus extra-ter-restre no universo. Nem mesmo os modernos teólogos da crise aceitam uma revelação significativa de Deus na natureza. Baríh, por exemplo, afirma que o homem perdeu tão completamente a imagem original de Deus que sem uma ação sobrenatural em cada caso individual, ele não pode ter qualquer conhecimento de Deus. Deus tem que criar a capacidade para uma revelação e também comunicá-la ao homem. Brunner afirma que embora o homem tenha perdido o conteúdo desta imagem, não perdeu a forma dela. Ele, portanto, cré que o homem pode ver algo de Deus na natureza. Os deístas, por outro lado, afirmavam que a natureza é a suficiente revelação de Deus. Diziam que ela nos fornece umas poucas verdades simples e imutáveis a respeito de Deus, da virtude, da imortalidade e da recompensa futura de maneira tão clara que ne¬nhuma revelação especial é necessária. No entanto, a filosofia célica e crítica mos¬trou que nunca houve na natureza uma revelação tal como os deístas dizem ter existi¬do. O que eles afirmaram não passou de verdades abstratas derivadas, não da natureza, mas emprestadas de outras religiões, especialmente do cristianismo. Esta opinião tem sido grandemente substituída pela crença de que não temos revelação alguma de Deus na natureza.

Mas os homens em geral sempre viam na natureza uma revelação de Deus. Os mais bem dotados muitas vezes expressaram suas convicções em linguagem semelhan¬te a dos salmistas, dos profetas e dos apóstolos (SI. 8:1,3; 19:1,2; Is. 40:12-14, 26; Atos 14: 15-17; Rm. 1: 19,20). Hume foi um cetico mas conta-se que ele disse a Ferguson ao andarem juntos numa noite estrelada; "Adam, há um Deus!" Diz-se que Voltaire orou ern meio a uma tempestade alpina. Muitos homens extraordinários no campo das ciências naturais e biológicas testificaram quanto a convicção de que a natureza revela Deus. Apontam o universo como uma manifestação do poder, glória, divindade e bondade de Deus. Mas cientistas cristãos têm também mostrado as limitações da revelação de Deus na natureza. Eles têm insistido que, embora deixe o ho¬mem sem nenhuma desculpa, esta revelação por si só é insuficiente para a salvação; entretanto, têm a missão de incitar o homem a buscar uma revelação mais plena de Deus e Seu plano de salvação, e constitui um chamado geral de Deus para que o ho¬mem se volte para Ele.

(2) A Revelação de Deus na História... O salmista faz a arrojada asserção de que os destinos dos reis e impérios estão nas rnãos de Deus. "Porque não é do Oriente, não é do Ocidente, nern do deserto que vem o auxilio. Deus é o juiz; a urn abate, a outro exalta". (SI. 75: 6, 7, cf; Rm. 13: 1). E Paulo declara que Deus "de um só fez toda raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fi¬xado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para busca¬rem a Deus se, porventura, tateando o possam achar" (Atos 17:26,27). Concordan¬do com isto, o sistema cristão encontra na história uma revelação do poder e da pro¬vidência de Deus.

A Bíblia fala igualmente de como Deus lidou com o Egíto (Êx. 9: 13-17; Rm. 9: 17; Jr.46:14-26), Assíria (Is. 10:12-19; Ez.31:l-14; Naum 3:1-7), Babilónia (Jr. 50:1-16; 51:1-4), Medo-Pérsia (Is. 44:24 - 45:7), Medo-Pérsia e Grécia jun¬tas (Dn.8: 1-8, 15-21), os quatro reinos que vieram depois da queda do império de Alexandre (Dn.8:9-14, 22-25; 11:5-35), o império romano (Dn.7:7,23). Toda Ela mostra que "a justiça exaiía as nações, mas o pecado é opróbrio dos povos" (Pv. 14: 34). Mostra também que apesar de Deus poder, para Seus próprios sábios e santos propósitos, permitir que uma nação mais ímpia triunfe sobre uma menos ímpia, Ele no fim tratara a mais ímpia com maior severidade, do que a menos ímpia (He. 1:1 — 2:20).

Notamos, mais particularmente, que Deus revelou a Si Mesmo na história de Is¬rael: no conceito que Israel tinha de Deus e no tratamento que Deus deu a Israel. Quanto ao primeiro, é realmente extraordinário que numa época em que o mundo inteiro havia mergulhado na desesperança do politeísmo e panteísmo, Abraão, Isaque e Jacó, e seus descendentes chegassem ao conhecimento de Deus como um Deus pes¬soalmente infinito, santo, revelando a Si mesmo como o Criador, Preservador e Gover¬nador do universo. Não apenas isso, mas que eles tivessem chegado ao conceito de como o homem foi originalmente criado à semelhança de Deus, caiu desta alta posição e trouxe o pecado, condenação e morte sobre si próprio e sua posteridade. E ainda mais que isto, que eles chegassem à compreensão do propósito redentor de Deus atra¬vés do sacrifício, de libertação através da morte de um Messias, da Salvação para todas as nações e de um reino final em retidão e paz.
Estes conceitos são realmente mara¬vilhosos! Não se elevem, entretanto, ao "gênio religioso" de Israel, mas sim à revela¬ção de Deus para seu povo. Vemos Deus aparecendo pessoalmente aos patriarcas; dando a conhecer a Si mesmo e Sua vontade por meio de sonhos, visões e êxtases; comunicando Sua mensagem diretamente a eles; e revelando Seu Santo Caráter na legislação Mosaica, o sistema de sacrifícios, e os serviços do tabernáculo e do Templo.

É vista também na história da nação. Apesar de Israel ser pequeno, viver em um pequeno e obscuro país, e manter pouco comércio com o resto do mundo, foi mesmo assim um espetaculo para o mundo (Dt 28.10). Quando Deus ameaçou destruir a nação no deserto devido ao seu grave pecado - Moisés suplicou-lhe que poupasse o povo por causa da maneira como Sua honra ficaria envolvida na destruição (£x. 32: 12; Dt. 9: 28). Quando Israel obedeceu a Deus, conquistou sete nações maiores que ele (Dt. 7:1; 9:1; Josué 6: 12); mas quando seguiu seus próprios caminhos, Deus os en¬tregou a nações opressoras e à catividade em terras longínquas. Quando ele se arrepen¬deu e clamou a Deus, Ele lhe mandou um libertador e lhe deu vitória sobre seus inimi¬gos (Livro de Juizes). Davi triunfou sobre todos os seus inimigos, porque andava nos caminhos de Deus (II Sm. 7: 9, l Í); e todos os reis tementes a Deus gozavam de pros¬peridade doméstica de triunfo na guerra. Mas toda vez que a nação se afastava de Deus era castigada pelas secas, pragas e gafanhotos e reveses na guerra. Pode-se real¬mente dizer, portanto, que em todas as experiências de Israel Deus Se revelou, e não apenas à nação mas, através da nação, ao mundo todo.

(3) A Revelação de Deus na Consciência. Já dissemos que com base na consciên¬cia Kant cria em Deus, na liberdade e na imortalidade. Muitos dos moralistas ingleses eram da mesma opinião. Este é o chamado Argumento Moral em favor da existência de Deus. Não podemos dar aqui uma definição completa de consciência: isso será feito com referência a nosso estudo a respeito da constituição moral do homem. Basta dizer que a consciência não é inventiva, mas sim discriminativa e impulsiva. Ela julga se um curso de ação proposto em uma atitude está ou não em harmonia com nossos padrões morais e insta conosco para fazermos aquilo que estiver em harmonia com eles e nos abstermos de particular aquilo que for de encontro a eles.

É a presença no homem desta ciência do que é certo e errado, deste algo discrimi¬nativo e impulsivo que constitui a revelação de Deus. Isto é, nos revela apenas o que Ele é, mas também que Ele faz uma distinção clara entre o certo e o errado (Rm. 2; 14-16); que Ele sempre faz o que é certo; e que Ele também dá à criatura racional a responsabi¬lidade de sempre fazer o que é certo e se abster do que é errado. Também dá a enten¬der que a transgressão será punida.

Concluímos, portanto, que na consciência ternos outra revelação de Deus. Suas proibições e ordens, suas decisões e impulsos não teriam qualquer autoridade real sobre nós se não sentíssemos que na consciência ternos de alguma forma a realidade, algo em nossa natureza que todavia está acima dessa natureza. Em outras palavras, ela revela o fato de que há uma lei absoluta do certo e do errado no universo e de que há um Legislador Supremo que encarna esta lei em Sua própria pessoa e conduta.

2. A Revelação Especial de Deus. Com revelação especial queremos dizer aqueles atos de Deus pelos quais Ele se dá a conhecer a Se prórpio e a Sua verdade em momentos especiais e a povos específicos. Apesar de dada em momentos especiais e a povos es¬pecíficos, a revelação não fica necessariamente circunscrita apenas àquele momento e povo. Na verdade, os homens são conclamados a proclamar os atos e obras maravilho¬sas de Deus 'entre todos os povos da terra (SI. í 05: l, 2). A revelação especial é como se fosse um tesouro a ser partilhado com o mundo inteiro (Lucas 2: 10; Mt. 28: 19, 20: Atos 1:8). Ë dada ao homem de varias maneiras: na_forma de milagres e profe¬cia, na pessoa e trabalho de Jesus Cristo, nasEscnturas e na experiência pessoal.

Vamos considerar brevemente cada uma delas.

(1) A Revelação de Deus em Milagres. Um milagre genuíno é um acontecimento fora do comum, que realiza uma obra útil e revela a presença e o poder de Deus (Êx. 4:2-5; IReisl8:24; João5:36; 20:30,31; Atos2:22); um falso milagre, se não for um simples engano, é um capricho de poder, arquitetado para exibição e ostenta¬ção, e inferior ao verdadeiro milagre (Êx. 7: 11, í 2, 22; Atos 8:9-11; 13:6-8; Mt.24: 24; !ITs.2:9; Ap. 13:13). Um milagre verdadeiro ê um acontecimento fora do co¬mum por não ser o mero produto das chamadas leis naturais. Em relação à natureza. s se dividem em dois tipos: aqueles nos quaisjis leis naturais são intensificadas ou aumentadas, como no dilúvio, em algumas pragas do Egito,na força de Sansão, etc.; e aqueles nos quais toda participação da natureza fica excluída, como no florescimento da vara de Arão, a obtenção de água da rocha, a multiplicação dos pães e dos peixes, a cura dos doentes, a ressurreição dos mortos.

Um milagre genuíno realiza uma obra prática e benevolente. Diz-se que Orígenes aplicou este teste quando soube de milagres praticados por santos homens e por sábios pagãos: ''Em que resultaram? O que estabeleceram? Onde está a sociedade que foi fundada com sua ajuda? O que existe na história do mundo que eles ajudaram a progre¬dir?" Contra Celsus, II 51. E nas Pseudo Homilias Clementinas, Pedro aparece con¬trastando os milagres de Cristo com aqueles que se diziam ter sido praticados por Simâo o mágico, e concluindo assim. "Se ele praticar milagres inúteis, é um agente do mal; mas se praticar coisas úteis, é um líder da bondade." Nós também cremos que o teste de um milagre genuíno deve ser sempre: Que obra útil ele fez ou faz?

Milagres genuínos são uma revelagão especial da presença e do poder de Deus. Provam Sua existência, cuidado e poder. São ocasiões nas quais Deus como que sai de seu esconderijo e mostra ao homem que é um Deus vivo, que ainda está no trono do universo e que é suficiente para todos os problemas do homem. Se um milagre não produz essa convicção no tocante a Deus, então provavelmente não é um milagre ge¬nuíno.

Mas há muita oposição hoje aos ensinamentos que dizem respeito a milagres. To¬dos os sistemas naturalistas, panteístas_e deístas rejeitam-nos a priori. Para eles, o uni¬verso é uma grande máquina auto sustentada.

Oferecemos as seguintes réplicas a essa posição.

A primeira posição assume incorretamente que as leis da natureza são auto-suficientes e sem influência, direção ou manutenção externas. Afirmamos, em vez disso, que elas não são completamente independentes, pois mero poder não pode manter-se a si próprio ou funcionar com um propósito: um poder infinito e inteligente é neces¬sário para fazer isso; e que Deus participa de todas as operações, quer da matéria, quer da mente, sem agredi-las. Nos atos maus, entretanto, Ele participa apenas até o ponto deles serem naturais, e não na sua maldade. E se Ele fizer isso na operação comum das leis da natureza, porque deveríamos considerar isso como uma violação delas se em Suas administrações extraordinárias Ele as intensifica ou aumenta, neutraliza ou age independentemente delas?

A segunda proposta de que milagres são jncríveis porque contradizem a experiên¬cia humana, assume erradamente que precisamos basear toda a nossa crença na expe¬riência humana presente. Os geólogos falam sobre grandes atividades glaciais no pas¬sado e da formação de mares e baías por intermédio dessas atividades, e no entanto não vemos nada disso acontecendo hoje. A revelação de Deus na natureza, história e consciência nos deveria levar a esperar milagres em diversas ocasiões. Os milagres não contradizem a experiëncia humana a menos que contradigam toda a experiência humana, no passado bem comoo no presente. Isso deixa bem aberta a porta para bem funda¬mentada evidência sobre o que realmente aconteceu.
Além disso, os geólogos admitem francamente que a vida não existiu eternamente neste planeta. Chamberlain e Salisbury dizem: '"Condições apropriadas de vida não existiam até após algum desenvolvimento notável da atmosfera e da hidrosfera". T.C. Chamberlain e R.D. Salisbury - Geology (Geologia) (New York: Henry Holt & Co., 1937), II 407,
Não têm explicação para a origem da vida, dizendo que essa não é uma questão fácil de responder. Mas a vida não pode ter vindo de substância inanimada - a teoria da abiogenese já morreu faz tempo - só pode ter vindo da vida. A introdução da vida neste planeta é portanto em si mesma uma testemunha da realidade dos milagres.

E agora, positivamente, diríamos que a prova dos milagres repousa em testemu¬nho. Todos cremos em muitas coisas na base do que consideramos testemunho verdadeiro. Quão pouca história conheceriamos se acreditássemos apenas naquilo que pessoalmente observamos e experimentamos! Os milagres da Bíblia repousam sobre tesemunho válido. Não é possível examinar aqui a evidência para todos eles, nem é ne¬cessário. Se conseguirmos provar um dos mais importantes milagres da Bíblia, teremos aberto o caminho para que também os outros sejam aceitos.

Cremos que a ressurreição fisica de Cristo é um dos fatos mais mais bem comprovados da história. Quase todos os relatos que nos falam sobre ela foram escritos de 20 a 30 dias após o acontecimento; eles nos asseguram: que Cristo havia realmente morrido e sido sepultado; que apesar de Seus seguidores não esperarem que Ele ressuscitasse, muitos deles O viram vivo poucos dias após a crucificação; que eles tinham tanta cer¬teza de Sua ressurreição que corajosa e publicamente declararam esse fato em Jerusa¬lém um mês e meio após ela haver ocorrido; que nem naquela época nem em qualquer ouira época em que o assunto foi mencionado nos tempos apostólicos ela foi posta em dúvida; que nenhuma prova em contrário do fato jamais chegou até nós, de qual¬quer fonte; que os discipulos sacrificaram sua posição social, posses materiais e mesmo sua vida por este testemunho; que Paulo não argumenta em favor da ressurreição de Cristo, mas a usa como prova do fato de que todos os crentes ressurgirão da mesma maneira; e que na igreja, no Novo Testamento e no dia do Senhor, temos testemunho corroboratório da historicidade deste grande acontecimento. E se a ressurreição de Cristo é um fato histórico, então o caminho para a aceitação de outros milagres está aberto.



E finalmente, acreditamos que milagres milagres ainda acontecem. Não são contrários nem à experiência dos dias de hoje. Todos os verdadeiros cristãos testificam a res¬peito do fato de que Deus responde aorações. Na verdade, estão convencidos de que Deus operou milagres em seu favor ou em favor de alguns de seus amigos. Eles têm certeza de que apenas as leis da nattureza não podem explicar as coisas que viram com seus próprios olhos e experimentado em suas próprías vidas. Nenhuma quanti¬dade de oposição por parte dos descrentes vai jamais persuadi-los a pensar de outra maneira Mais especificamente, temos o sempre recorrente milagre da regeneração. O Etíope não pode mudar sua pele, nem o leopardo suas manchas, mas o Senhor po¬de mudar e muda o coração e remove as manchas do pecador. Diremos mais a respei¬to deste milagre sob a revelação de Deus na experiência cristã. Basta dizer que respos¬tas a orações e a experiência da regeneração provam que milagres ainda acontecem.

(2) A Revelação de Deus na Profecia. Usamos profecia aqui para indicar ajredi-ção de acontecimentos, não por virtude de mera percepção ou presciência humana, mas através de uma comunicação direta de Deus.
Mas por não podermos saber se uma declaração foi assim comunicada a um ho¬mem enquanto não chega a hora de ser cumprida ou quando ficar evidente que não será cumprida, o valor imediato da profecia como prova da presença e da sabedoria de Deus fica dependendo da questão de se aquele que o pronuncia está vivendo em contato com Deus.

Só podemos determinar isso com base em seus outros ensinamentos e vida santa.
Quanto ao cumprimento aparente da profecia, precisamos aplicar ainda certos, testes antes de podermos ter certeza de que ela foi genuína.
Precisamos determinar, por exemplo, se a profecia estava suficientemente distante do acotecimento que ela predisse para excluir a possibilidade de mera percepção ou presciência humanas. Os judeus, nos dias de Jesus, não podiam discernir os sinais dos tempos, por exemplo, que os romanos viriam destruir sua cidade e nação; mas muitos estadistas podemantever e predizer o futuro com bastante exatidão. Tal pre¬dição não poderia, entretanto, ser chamada de verdadeira profecia. Temos também que examinar a linguagem da predição para percebermos se é ambígua e possível de mais de uma explicação, j^reso. dizem, perguntou ao oráculo de Delfos, na época em que estava em guerra com Ciro, se deveria ou não levar adiante o empreendimento, e recebeu a resposta de que se o fizesse, destruiria um grande império. Ele prosseguiu, mas o império que destruiu foi o seu. Devemos, portanto, insistir que urna declaração seja bem clara antes de podermos considerá-la como uma verdadeira profecia.

As objeções à profecia podem ser encaradas da mesma maneira que as objeções a milagres. Cristo é, num sentido muito real, a luz que iluminou todo homem (João 1:9). Shedd diz que "as Escrituras . . . relacionam todas as operações da razão ao autor do intelecto humano. Nada no consciente humano é independente de Deus, e isolado". Wm. G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Teologia Dogmática) (New York: Charles Scribner's Sons, 1889), I, 64. Em outras palavras, Deus contribui para os pensamentos do homem da mesrna maneira que Ele contribui para as leis da nature¬za, sem destruir nenhum dos dois ou Se tornar participante do pecado. E se Ele opera assim nos processos mentais comuns, não devemos achar estranho se Ele ocasionalmen¬te os transcender e operar independentemente deles. A esta possibilidade de profecia pode ser acrescentada prova direta do cumprimento da profecia. Não precisamos nos incumbir de provar o cumprimento de todas as predições bíblicas (algumas na realida¬de, ainda não foram cumpridas, referindo-se ao futuro), mas desejamos mostrar uma linha clara de profecia que já foi cumprida. Se esta lista de passagens demonstrar ser profecia verdadeira, então ninguém pode dizer que essas comunicações diretas de Deus são impossíveis e não ocorrem.

Estamos falando das predições a respeito da primeira vinda de Cristo. Pedir para crermos que são devidas à mera presciência humana ou a coincidências fortuitas é pedir para crermos numa improbabilidade muito maior do que crermos que são o re¬sultado de uma revelação direta de Deus. Mesmo que aceitássemos a última data que os liberais dão para o último iivro do Velho Testamento, cerca de 165 A.C..teríamos ainda mais de um século e meio antes que quaisquer das coisas ditas a respeito de Cristo fossem cumpridas; e se aceitarmos uma data rnais conservadora, como o faze¬mos, então mais de quatrocentos anos. Vamos, então, prestar atenção às predições a respeito d Ele que já foram cumpridas.

Cristo deveria ser (l) nascido de uma virgem (Is. 7:14; Mt. l: 23); (2) da semente de Abraão (Gn. 12:3; GI.3:8), (3)daTribo de Judá (Gn.49:10; Hb.7':14j, (4) da linhagem de Da vi (SI. 110:1; Rm. 1:3).

Ele deveria (5) nascer em Belém (Miquéias 5: 2; Ml. 2: 6); (6) ser ungido pelo Espírito (Is. 61:1, 2; Lucas4: 18, 19); (7) entrar em Jerusalém montado em um asno(Zc.9:9; Mt.21:4,5), (8) ser traído por um amigo (SI. 41:9; João 13: 18), (9) ser vendido por trinta moedas de prata (Zc. 11: 12, 13; Mt.26;15; 27:9, 10); (10) ser abandonado por seus discípulos (Zc. 13:7; Mt. 26:31, 56), (11) ter suas mãos e pés traspassados mas não ter nenhum osso quebrado (SI. 22:16; 34:20; João 19:36; 20:20,25).


Os homens iriam (12) dar-lhe fel e vinagre a beber (SI. 69:21; Mt. 27: 34), (13) repartir Suas vestes e lançar sortes sobre Sua túnica (Si. 22:18; Mt.
27:35). Ele seria (l4) abandonado por Deus (51.22:1; Mt. 27:46) e (15) enterrado com os ricos (Is. 53: 9; Mt. 27: 57-60). Ele iria (l6) surgir dos mortos (SI. 16:8-11; Atos 2: 27), (17) subir às alturas (SI. 68:18; Ef. 4: 8) e, (18) assentar à mão direita do Pai (SI. 110: l; Mt. 22:43-45). Será que não temos nestas predições que já foram cumpridas uma forte prova do fato que Deus Se revelou por profecia? E se Ele o fez nestas predições, o que nos impede de crer que O fez em outras também?
(3) A Revelação de Deus em Jesus Cristo. A revelação geral de Deus não levou o mundo gentio a uma apreensão clara da existência de Deus, da natureza de Deus ou da vontade de Deus. Paulo reclama disto em uma passagem clássica (Rm. 1: 20-23). Mesmo a filosofia não deu aos homens uma concepção verdadeira de Deus. Paulo as¬sim fala da sabedoria do mundo: "Na sabedoria de Deus o mundo não O conheceu por sua própria sabedoria" (I Co. 1:21), e declara que a verdadeira sabedoria "nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da Glória" (I Co. 2: 8). Apesar de revelação gera! de Deus na na¬tureza, na história, na consciência, o mundo gentio voltou-se para a mitologia, o poli¬teísmo e a idolatria. Uma revelação mais plena se fazia grandemente necessária.
Tão pouco as outras revelações especiais de Deus nos milagres, profecia e teofa-nia levaram Israel a um conhecimento real da natureza e da vontade de Deus. Israel cria na existência do Deus vivo e verdadeiro, mas possuía noções muito imperfeitas e até pervertidas a respeito dEle. Considerava-O principalmente o Grande Legislador e Juiz que insistia no cumprimento escrupuloso da letra da lei, mas que pouco se preocu¬pava com a condição interior do coração e a prática da justiça, misericórdia e fé (Mt. 23: 23-28); como Aquele que tinha que ser aplacado com sacrifícios e persuadido com holocaustos, mas que não precisava de um sacrifício infinito e não aborrecia verdadei¬ramente o pecado (Is. 1: 11-15; Mt.9:13; 12:7; 15: 7-9; 23:32-36); como Aquele que fez da des^ej^rj€iajle_Abraão a única condição para o Seu favor e bênçSo e que considerava os gentios inferiores a eles (Mt. 3:8-12; 12: 17-21; Marcos 11: 17). Is¬rael também necessitava de uma revelação mais plena de Deus. E a temos na Pessoa e MissSo de Jesus Cristo.
Cristo é o centro da história edarevelacãp, O escritor dos Hebreus diz: "Haven¬do Deus, autrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pêlos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho (Hb. 1: l, 2); e diz que Ele é "o resplendor da glória e a expressão exata do Seu ser (v. 3). Paulo diz que Ele é "a imagem do Deus invisível (Cl. 1: 15), e diz que "nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divin¬dade" (Cl. 2:9). João diz: "Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigénito, que está no seio do Pai é quem O revelou" (João 1: 18). E o Próprio Jesus disse: "Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar" (Mt. 11: 27); ainda mais: "Quem me vê a mim vê o Pai" (João 14: 9). Conseqüentemente, a igreja tem, desde o princípio, visto em Cristo a Suprema revelação do Pai. ï*?.
Parece termos em Cristo uma revelação tnpligede Deus: Uma revelação de Sua existência, de Sua natureza e de Sua vontade. Ele é a melhor prova da existência de Deus, pois viveu a vida de Deus entre os homens. Ele tinha não apenas plena consciên¬cia da presença do Pai em Sua vida e constantç comunhão com Ele (João 8:18, 28,29; 11:41; 12: 28),-como também provava por meio de Suas reivindicações (João 8:58; 17: 5), Sua vida sem pecados (João 8:46), Seus ensinamentos (Mt. 7:28, 29; João 7: 46), obras (JoSo5:36; 10:37,38; 15:24), posições e prerrogativas (Mt. 9:2,6;

Joio 5: 22,25, 28), e relações com o Pai (Mt. 28:19; João 10: 38) que Ele Próprio era Deus. Ele revelou a santidade absoluta de Deus (Joio 17: 11,25), o profundo amor de Deus (João 3:14-16), a Paternidade de Deus, não, em verdade, de todos os homens, mas dos crentes verdadeiros (Mt. 6: 32; 7:11; Joio 8:41-44; 16;27),ea natureza espiritual de Deus (João 4:19-26). Ele revelou também a vontade de Deus: de que todos se arrependam (Lucas 13: 1-5), creiam nEle (Jcão 6: 28, 29), sejam per¬feitos como o Pai é perfeito (Mt. 5:48), e que os crentes levem o Evangelho a todo o mundo (Mt. 28:19, 20).
_A_ revelação de Deus em Cristo e n fato mais prnFiiodnjigJiistnna e merece a mais cuidadosa consideração, mas como vamos dedicar diversos capítulos deste trabalho a um estudo da pessoa e obra de Cristo, não precisamos nos aprofundar mais nesse as¬sunto aqui. Voltamo-nos agora para a incorporação das revelações de Deus nas sagra¬das Escrituras.
(4) A Revelação de Deus nas^Escrituras. Tem sido sempre afirmado pelo crente verdadeiro que temos na Bíblia uma revelação de Deus, certamente a revelação mais clara e a única que é infalível. A Bíblia não deveria, entretanto, ser considerada como uma revelação que é coordenada com aquelas previamente mencionadas, mas sim como uma incorporação delas. Ela registra, por exemplo, o conhecimento de Deus e de Seu relacionamento com a criatura a que os antigos chegaram através da natureza, da histó¬ria e da consciência, e também dos milagres, profecias, do Senhor Jesus Cristo, da ex¬periência íntima e da instrução divina. O cristão, portanto, volta-se para as Escrituras como a única fonte suprema e infalível para a construção da sua teologia. Mas como vamos considerar este assunto mais detalhadamente quando chegarmos ao estudo da natureza da Bíblia (Capítulo V), não nos aprofundaremos nele por enquanto.
(5) A Revelação de Deus na Experiência Pessoal. Homens de todas as idades têm professado ter comunhão direta com Deus. Declaram que o conheceram, não simplesmente através da natureza, história e consciência, nâ"o apenas por meio dos milagres e profecias mas também por experiência pessoal direta. Foi assim nos tempos do Velho Testamento. Enoque e Noé andaram com Deus (Gn. 5:21-24; 6:9); Deus fa-lou a Noé (Gn.6: 13; 7:1; 9:1); a Abraão (Gn. 12: 1-3); a Isaque (Gn. 26:24); a Jacó (Gn.28:13; 35:1); a José (Gn. 37:5-11); a Moisés (Êx. 3:3-10; 12:1); a Josué (Josué 1:1); a Gideïo (Juizes 6: 25); a Samuel (I Sm, 3: 2-4); a Davi (I Sm. 23: 9-12); a Elias (I Reis 17: 2-4); a Isaías (Is. 6: 8), etc. Da mesma maneira, no No¬vo Testamento Deus falou a Jesus (Mt. 3:16, 17; João 12: 27, 28); a Pedro, Tiago e João (Marcos 9:7); a Felipe (Aios 8: 29); a Paulo (Atos 9:4-6; 18:9); e a Ananias (Atos9:10).
Esta experiência de comunhão com Deus tinha um poder transformador nas vidas daqueles que passavam por eia (SI. 34:5; cf. £x. 34:29-35). Eles se tornaram cada vez mais parecidos com o Senhor com Quem tinham comunhão (Atos 6:15, cf. II Co. 3:18). Entre os doze discípulos, isto parece ter sido especialmente verdadeiro no caso de João (João 13:23-25; I João 4:7-11). Mas sentimentos estáticos e caráter trans¬formado não foram de modo algum o único resultado. Comunhão com Deus trazia também uma revelação das verdades mais profundas de Deus e confiava ao que dela gozava a mensagem de Deus para a igreja e para o mundo. Nío lhe dava apenas a men¬sagem mas também a inspiração do Espírito Santo para que a pudesse reproduzir clara e infalivelmente (II Tm. 3: 16; II Pedro 1: 21): A revelação de Deus na experiência pessoal é a principal fonte de onde a inspiração obteve seu material, mas em um senti-
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do mais amplo, podemos dizer que, das várias revelações de Deus, ainda experimenta¬das pelo homem, o Espírito Santo fez uma seleção e as fez registrar infalivelmente, por inspiração divina, nas Santas Escrituras. Assim, temos nas revelacõesjlejjejas. par¬ticularmente nas que estão registradas nas Biblia.
D. Os Dons do Homem
Assumindo então que Deus Se revelou, A isto respondemos que nem o mundo exterior nem o inferior revelariam qualquer coisa a respeito de Deus sem os dons singulares do homem, Já citamos Shedd em parte deste assunto (acima), vamos citá-lo um pouco mais detalhadamente aqui, Ele diz:
"As Escrituras . . . relacionam todas as operações da razão ao Autor do intelecto humano. Nada no consciente humano é independente de Deus, isolado. Deus é o 'Pai das Luzes' de todo Tipo (Tiago l : 17). Deus 'mostra' o que quer que seja conhecido através da constituição humana. Até a razão humana, que na in¬tuição da matemática e nas Íeis da lógica parece ser uma faculdade auto-suficiente, é apresentada na Escritura como dependente. O homem consegue perceber intui* tivamente simplesmente porque a Suprema Razão o ilumina". Wm. G.T. Shedd, Op.cit.,1, 64.

São de dois tipos os dons do homem: mentais espirituais. Vamos examiná-los cuidadosamente a seguir.
1. Seus DonsJl£ntais. O homem que rejeita a ideia de uma revelação de Deus ou por parte dEle se volta para a razão para a solução de todos os seus problemas. Duriin-te o decorrer da história apareceram três tipos de Racionalismo : Ateísta, Pankson « Teísta. Racionalisrno_a_teísta apareceu primeiro entre os grandes antigos filósofos gie-gos: Tales, Anaximandre, Anaximanes, Empedocles, Heráclito, Lucipo e Uemócrilo; o Racionalismo panteísta, em Anaxagoras e os Estóicos; e o Racionalismo teísta ;ip;i-receu primeiro sob a forma de Deísmo inglês e alemão no século dezoito. Mas enquan¬to que todas as formas de Racionalista dão autoridade indevida à razão nos assuntos de religião, o crente verdadeiro tem a tendência de dar -lhe um lugar muito exíguo.
Com razão aqui queremos dizer não simplesmente os poderes da lógica do homem ou sua capacidade de raciocinar, mas seus poderes cognitivos, — sua_cagacidade_de_ger-ceber, comparar, jjilgar e organizar. Deus dotou o homem com a razão e o que é erra¬do não é o uso dela, mas sim o abuso. Não é aqui possível discutir todos os abusos da razão, mesmo entre teístas professos; mas queremos mencionar quatro USQS aptojiria-^ dos da razão com a qual Deus nos dotou no estudo da teologia.
(1) A razão é o^ órgão ou ca_gaçjdadejjgconhecer a verdade., A razão intuitiva nos fornece as ideias básicas de espaço, tempo7"causa ,~sübstância , desígnio, direito, e Deus, que são as condições para todo conhecimento subsequente. A razão apreensiva recebe os fatos a ela apresentados para cognição. Entretanto, deve ser lembrado que há uma diferença entre conhecer e compreender uma coisa. Sabemos que uma planta cresce, que a vontade controla os músculos voluntários, que Jesus Cristo é o Deus-ho. mem, mas_nãg compxeen^riigsjraidtg^nicarjicauáo isso pessa-ser.
(2) A^g^_ílg^ilJ^Ll-gI^'bilitla^e -fo mna_apresentaça"g_. Com "crível" que¬remos dizer verossímil. Há coisas que são claramente incríveis, como a vaca que pulou sobre a lua, e as ^ïóija.s da carochinha em Alice no País da£_Marayilhas_; e e' a tarefa da razão declarar se uma apresentação é digna de crédito. Nada é incrível com exceção do impossível. Uma-coisa-p&de ser .estranha, inexplicável, ininíeligente, e rnesmo as¬sim perfeitamente crível, A menos que estejamos dispostos "a crer no incompreensí¬vel, não podemos crer em nada. O impossível é aquilo que envolve uma contradição; que é inconsistente com o caráter conhecido de Deus; que contradiz as leis da crença com a qual Ele nos dotou; e quê contradiz alguma outra verdade bem autenticada.
(3) A_razão deyejujgarji. evidência de_uma apresentação. Como a__fe _envpjve aceitação, e aceitação e' convicção produzida por evidência, segu^e_qiie_fLSÊm_-êYi-dência éjrracional_ou impossível. Assim, a razão deve examinar as credenciais das comunicações que professam ser, e de documentos que professam registrar, tal reve-laçSo. Ela deve perguntar: Os registros são genuínos ou espúrios, sío puros ou mistos? Esta evidência deve ser apropriada à natureza da verdade sendo considerada. Verdade histórica exige evidência histórica; verdade empírica, o^testemunho da experiência,. Tierdade matemática, evidência matemática; verdade moral, evidência moral; e "as coisas do Espírito", a demonstração do Espírito. Em muitos casos, tipos diferen¬tes de evidência cooperam na corroboração da mesma verdade, como a crença na divindade de Cristo. Ale'm disso, a evidencia deve não apenas ser apropriada, mas também adequada, isto é, de tal modo que possa ser aceita por toda mente bem cons¬tituída à qual for apresentada.
(4) A razão dgvejambem organizar os fatos ap_resentados_ern_ um sistema. Do mesmo modo que uma pilha de tijolos não constitui uma casa, também os simples fatos da revelação não constituem um sistema útil. A razão deve descobrir o fator integrante e reunir todos os fatos relevantes em torno dele, determinando para cada parte seu lugar apropriado em um sistema coordenado e subordinado. Esta é a capa¬cidade sistematizadora da razão, que é seu impulso instintivo. Assim sendo, fica claro que a razã"o ocupa um lugar muito importante na teologia.
2. Seus Dons Espirituais. Rejeitamos a opinião do místico filósofo que afirma que iodos os homens podem através de discipliriã e contemplação rigorosas, chegar a um contato direto com a realidade suprema, que é o nome que dão a Deus, sem arre¬pendimento e fé em Jesus Cristo. Est^^^mi^Si^sa_p^S^^im^^ilejí^\im^isSo pa2tejsta_extr^rna_dQ_Jlliindo. Qualquer que seja a experiência "religiosa'1 que esse místico possa ter, podemos ter a certeza de que não é_uma experiência cristã de comu¬nhão com o Deus verdadeiro, através da mediação de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Rejeitamos também as formas extremas do Pjetismo, Quakerismo e Quietismo que surgiram na Europa durante a última parte do século dezessete. Os tipos"extrëmos de Pieíisrnp criam na possibilidade de uma união absoluta corn Deus, uma congenialida-de com Ele que foi além do que a Escritura ensina. As formas extremas de Quakeris¬mo afirmavam que todos os homens possuem uma "luz íntima" que, independente¬mente da Bíblia, poderia guiá-los a uma vida piedosa e santa. As variedades extremas do Quietismo afirmavam que deveríamos buscar uma tal comunhão com Deus, um tal estado de quietude perfeita na qual todo pensamento, toda atividade eram suspensos e a alma se perdia em Deus Infelizmente, aquilo que é um privilégio precioso do cren¬te foi, em muitos casos, levado a extremos e, como em alguns tipos de Quakerismo,
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até afirmado estar em posse dos não salvos.
Mas após dar o devido desconto às opiniões não bíblicas que acabamos de mencio¬nar, devemos insistir que o homem tem um conhecimento intuitivo _d_e_JDeus. As Es¬crituras ensinam que "porquanto o que1 Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder como também a Sua Própria divindade, claramente se reconhecem, des¬de o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são portanto indesculpáveis" (Rm. 1:19,20). Mais será dito a esse res¬peito no próximo capítulo.
Mais particularmente, mostraríamos que há um dom Bíblico para o crente por meio do qual ele entra em uma comunhão com Deus muito real e muito preciosa (l João l_^3j_J_Co. 1:9; RirhJJjJJslé; Gl. 4:6). Há um misticismo cristão, uma co¬munhão direta da alma com Deus que ninguém que tenha tido uma experiência vital cristã pode negar ou ignorar. Mas há, além disso, a iluminação do Espírito Santo que é concedido a todo crente. Jesus disse: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier porém o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido" (João 16: 12, 13). E Paulo diz: "Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente" (I Co. 2: 12). Isto é, o Espírito nos levará à compreensão da revelaçâ"o que Deus já fez de Si rnesmo, especialmente a revelação dEle nas Escrituras. Há então para aquele que busca conhecer a verdade, não apenas a sua própria razão, mas tam¬bém o auxílio do Espírito Santo. Este último, é claro, está à disposição apenas dos verdadeiros filhos de Deus.
B. AS DIVISÕES DA TEOLOGIA
O vasto campo da Teologia é normalmente dividido em quatro partes: Teologia Exegética, Histórica, Sistemática e Prática. Indicaremos brevemente a natureza e con¬teúdo de cada uma dessas partes.
I. A Teologia Exegética se ocupa diretamente do estudo do Texto Sagrado e as¬suntos relacionados, tais como auxílio na restauração, orientação, ilustração e interpre¬tação daquele texto. Inclui ela o estudo das línguas da Bíblia, da Arqueologia Bíblica, Introdução Bíblica (Geral e Especial), Hermenêutica Bíblica e Teologia Bíblica.
II. A Teologia Histórica traça a história do povo de Deus através da Bíblia e da igreja desde a época de Cristo. Ela trata da origem, desenvolvimento e dispersão da verdadeira religião e também de suas doutrinas, organizações e práticas. Ela abrange História Bíblica, História da Igreja, História das Missões, História da Doutrina e a His¬tória dos Credos e Confissões.
III. A Teologia Sistemática toma o material fornecido pela Teologia Exegética e Histórica e o arranja em ordem lógica sob os grandes títulos do estudo teológico. Mas temos que fazer cuidadosa distinção entre as contribuições da Teologia Exegé¬tica e da Histórica. A primeira é a única fonte real e infalível da ciência; mas a últi¬ma, em sua exibição da apreensão progressiva das grandes doutrinas da fé por parte da igreja, frequentemente contribui para uma compreensão da revelação Bíblica. A Teologia Dogmática é, estritamente falando, a sistematização e defesa das doutrinas expressas nos símbolos da igreja. Assim, temos Dogmática Crista, por H. Martensen, com uma exposição e defesa da doutrina Luterana; Teologia Dogmática, por Wm. G.T. Shedd, como uma exposição da Confissão de Westminster e de outros símbolos presbiterianos; e Teologia Sistemática, por L. Berfchof, como uma exposição da teo¬logia reformada. Mas nenhuma dessas obras adere tão rigidamente ao conceito origi¬nal da Teologia Dogmática quanto as obras mais antigas; e a Teologia Dogmática é hoje frequentemente identificada com a Teologia Sistemática. Sob a Teologia Sis¬temática precisamos certamente incluir também a Apologe'tíca, Polémica e Ética Bí¬blica.
IV. A Teologia Prática trata da aplicação da teologia na regeneração, santificação, edificação, educação e serviço dos homens. Ela busca aplicar à vida prática aquilo que os outros três departamentos da teologia contribuíram. A Teologia Prática abran¬ge os cursos de Homilética, Organização e Administração da Igreja, Liturgia ou o Pro¬grama do Culto, Educação Cristã e Missões.
PARTE I - TEÍSMO
Voltamo-nos agora para o assunto de Teísmo. Entretanto, infelizmente, nem
todos estâ"o de acordo com o que "teísmo" significa, pois o termo e' usado hoje em quatro sentidos .diferentes. Apesar de apenas o último deles ser realmente satisfató¬rio, não podemos deixar de olhar brevemente os outros também. O termo "teísmo"
é usado para, -
1. A crença em um poder ou poderes sobrenaturais, em um agente ou agentes espirituais, em um ou muitos deuses. Este ponto de vista inclui todas as crenças num deus ou deuses qualquer que seja sua espécie ou número, e é contrário apenas ao ate¬ísmo.
2 A crença na existência de apenas um Deus, quer pessoal ou impessoal, quer presentemente ativo no universo ou não. Este ponto de vista inclui o monoteísmo, panteísmo e deísmo e se opõe ao ateísmo, politeísmo e henoteísmo.
3. A crença em um Deus pessoal que é tanto transcendente quanto imanente e existe em uma só pessoa. Esta é a concepção judaica, maometana e unitária de Deus, e se opõe ao ateísmo, politeísmo, panteísmo e deísmo.
4. A crença em um Deus pessoal, tanto imanente quanto transcendente, que exis¬te ern três pessoas distintas, conhecidas respectivamente como Pai, Filho e Espírito Santo. Esta é a posição do Teísmo cristão e se opõe a todos os outros conceitos men¬cionados. Ë uma forma de monoteísmo, só que não do tipo unitário e sim do trinitá-rio. O cristão afirma que, como todas as outras crenças mencionadas possuem uma con¬cepção falsa de Deus, seu ponto de vista é o único realmente teísta. Como já dissemos acima, esta é a única interpretação satisfatória do termo,e é o que é adotado neste livro.
Mostramos no capítulo anterior que Deus Se revelou e que o homem é capaz de apreender esta revelação. Estes dois fatos formam os fundamentos do estudo teoló¬gico. Devemos continuar, nos dois próximos capítulos, a um maior esclarecimento e estabelecimento do ponto de vista teístíco do mundo.
CAPITULO
A Definição e Existência de Deus
Neste capítulo tentaremos formular a definição de Deus e desenvolver os argumen¬tos significativos em favor da existe"ncia de Deus. Esses dois assuntos merecem consi¬deração exaustiva pois são fundamentais a todos os outros estudos teológicos, mas po¬demos apenas tocar brevemente nos conceitos mais importantes a respeito de Deus e os aspectos mais significativos das provas de Sua existência.
I, A Definição de Deus
A linguagem também tem os seus direitos, e termos que por muito tempo têm sido usados para transmitir um certo significado específico não pode passar a ser usa¬do para expressar um significado inteiramente diferente. No entanto, isto tem muitas vezes sido feito na discussão teológica. O termo "Deus" tem sido tão ma] empregado recentemente que precisamos restaurar-lhe o sentido original no sistema cristão. Va¬mos examinar alguns desses usos errados, enumerar os nomes bíblicos para Deus, e apresentar a formulação teológica do conceito cristão de Deus.
1. Os Usos Errados do Termo. Tanto escritores filosóficos quanto teológicos são culpados nesta área. Para Platão, Deus é a mente eterna, a causa do bem na natu¬reza. Aristóteles O considerava como "a primeira causa de todo ser". Spinoza defi¬niu Deus como "a substância absoluta, universal, a causa real de cada e de toda exis¬tência; e nã"o apenas a Causa de todo ser, mas a existência completa, da qual cada existência especial é apenas uma modificação". Leibnitz diz que a razão final das coisas é chamada de Deus. Kant definiu Deus como sendo um Ser que, por Sua com¬preensão e vontade, ë a Causa da natureza; um Ser que tem todos os direitos e nenhu¬ma obrigação; o Autor moral do mundo. Para Fichte, Deus era a ordem moral do uni¬verso, realmente operando na vida. Hegel considerava Deus como sendo o espírito ab¬soluto, rnas um espírito sem consciência até que se torne consciente na razão e pensa¬mentos do homem. Strauss identificou Deus como o Universum; Comte, com Humani¬dade e Matthew Arnold, com a Corrente de Tendência que Causa a Retidáo.
Vamos observar tambe'm alguns abusos mais recentes do termo. Estes foram co¬lhidos do livro Contemporary Religious Thought (Pensamento Religioso Contempo¬râneo) de Thos. Kepler (New York: Abíngdon-Cokesbury Press, 1941), págs. 159-211. iCirtly F. Mather, um geólogo, diz que Deus é um poder espiritual, imanente no univer¬so, que está envolvido nos caprichos de sua criação (pág. 168). Henry Sloane Coffin diz: "Deus e' para mim aquela Força criadora, por traz do universo e no universo, que manifesta a si próprio na forma de energia, vida, ordem, beleza, pensamento, cons¬ciência e amor". Ele prefere dizer que Ele tem relações pessoais conosco a dizer que EJe é pessoal (pág. 176). Para Edward S. Ames, até recentemente um professor da
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Universidade de Chicago, Deus é "a ideia do todo da realidade personalizado, ideali¬zado", semelhante à ide'ia do Tio Sam (pág. 180). Ele acha que Deus é crescente e é finito (pág. 182). Henry N. Wieman diz que pensa muito mais do que o fazia alguns anos atrás em termos dos "símbolos cristãos tradicionais", sem "qualquer acesso de ortodoxia". Ele diz que "a mente e a personalidade restringiram o estuo de Deus... As abstrações da mente, não importa quão vastas, diminuiriam a grandeza e o poder criador de Deus" (pág. 199). Mas iodos podem ver que nenhuma dessas declarações alude ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Já está na hora de restaurarmos ao termo "Deus" a importância crista"estabelecida de longa data.
2. Os Nomes Bíblicos de Deus. Os nomes bíbiicos de pessoas e lugares são geral¬mente muito significativos, mas, por estranho que pareça, pouca ajuda nos dão os no¬mes básicos de Deus. Mas vamos observar os fatos. Um dos termos mais amplamente usados para a Divindade nos tempos antigos é El, com seus derivados Elim, Elohim e Eloah. Mas como o Theos grego, o Deus latino e português, é um nome genérico, in¬cluindo todos os outros membros na classe das divindades. Ele expressa majestade e autoridade, apesar do significado da raiz El estar perdida na obscuridade. Gesenius achou que era parte do verbo ser forte, sendo assim o Forte; Meldeke o ligou à raiz árabe para estar na frente, sendo assim Governador ou Líder; Dillman o traçou a uma raiz que dá ideia de poder ou força; Legarde procurou sua explicação numa raiz que significa meta. Mas realmente não sabemos. A.B. Davidson, em seu livro 'The Theolo-gy of The Old Testament" (A Teologia do Velho Testamento) (New York; Charles Scribner's Sons, 1907), pág. 39. O plural Elohim é usado regularmente pêlos escrito¬res do Velho Testamento com verbos e adjetivos no singular para dar a ideia de singu¬lar. O substantivo composto El-Elyon O designa como o mais alto, o Altíssimo. O sig¬nificado de El-Shaddai está também perdido na obscuridade. Alguns acham que signi¬fica O que Satisfaz — mas outros acham que significa o Todo-Poderoso. Jeová (ou Yahweh, apesar de que até esta colocação das vogais está agora sob suspeita) é o nome pessoal por excelência do Deus de Israel. O significado original e a derivação da pala¬vra também sSo desconhecidos. Os hebreus o ligavam a hayah, o verbo ser, que tern-se crido significar o "auto-existente"; mas estudiosos hoje desafiam esta derivação e in¬terpretação. Este nome ocorre em uma porção de combinações significativas, assim: Jeová-Jireh: O Senhor proverá (Gn. 22:13, 14); Jeová-Rapha; O Senhor que sara (Êx. 15:26); Jeová-Nissi: O Senhor nossa Bandeira (Êx. 17:8-15); Jeová-Shalom: O Senhor é Paz (Juizes 6: 24); Jeová-Raah: O Senhor e' meu Pastor (SI. 23: 1); Jeo-vá-Tsidkenu: O Senhor nossa Justiça (Jr. 23:6); e Jeová-Shammah: O Senhor está Presente (Ez. 48:35).
Adonai, meu Senhor, é um título que aparece frequentemente nos profetas, ex¬pressando dependência e submissão, como a de um servo para com seu senhor, ou de uma esposa para com seu marido. Yahweh-Tsebaoth aparece frequentemente na lite¬ratura profética e pós-exílio (Is. l:9; 6:3; SI. 84: l, etc.). Alguns acham que o termo se refere à presença de Deus junto aos exércitos de Israel nos tempos da monarquia (I Sm. 4:4; 17:45; II Sm. 6: 2), mas um significado mais provável é o da presença de Deus junto às hostes dos céus, os anjos, sem nenhum sentido marcial (Is. 37:16; Oséiasl2:4,5; 51.80:1,4; 89:6-8).
No Novo Testamento o termo "theos" toma o lugar de El, Elohim e Elyon. Os nomes Shaddaí e El-Shaddai se transformam em Pantokrator e Theos Pantokrator. As vezes o nome "Yahweh" é substituído por "o Alfa e Omega", "que é, que era e que será", "o princípio e o fim", "o primeiro e o último" (Ap. 1:4, 8, 17; 2:8; 21:6; 22: 13). Nas referências restantes ele seguiu a Septuaginta, que substituiu Yahweh por Adonai, e depois este por Kurios £gr. kuros, poder). O nome Pater já é encontrado na Septuaginta para designar a relação de Deus com Israel (Dt. 32:6; SI. 103:13; Is. 63: 16; Jr. 3:4, 19; Ml. l: 6) e não aparece apenas no Novo Testamento, apesar de ser ali encontrado mais frequentemente.
Os modernistas desenvolveram uma teoria muito pouco cientifica a respeito da autoria dos livros do Velho Testamento, baseando-se principalmente, nas variações dos nomes de Deus nesses livros. A atribuição que fazem de várias partes do Penta-teuco (Hexateuco ou Octateuco) aJEDPHeSé bem conhecida. Mas parece muito estranho supor que um autor conhecesse apenas um nome da Divindade ou então que ele preferisse tanto esse nome que não usava nenhum outro. Os liberais já tiveram que modificar sua posição original de que os nomes geralmente indicavam quem tinha sido o autor, pois Elohim aparece em seções pertencentes a J (Gn.7:9; 33:5, 11, etc.) e Jeová em seções pertencentes a P (Gn. 7: 16; 14:22; 17:1; Ex. 18, seis vezes). Os críticos logo acharam necessário dividir o Elohista em dois - o primeiro Elohista, P, e o segundo Elohista, E, e tantos deles. É muito mais correio dizer que os nomes são usados de acordo com o contexto e significado pretendido. Elohim é usado com re¬ferência aos gentios e Jeová com referência a Israel, etc.
3. A Formulação Teológica da Definição. Antes de darmos diversas boas defini¬ções de Deus, queremos levantar a questão sobre se Deus pode ser definido. Alguns dizem que Ele não pode ser definido, pois ao fazê-lo, assumimos conhecer tudo a Seu respeito. Mas respondemos como Smith;
"Se, por definição, queremos dizer uma visão completa, de maneira que o assunto possa ser apropriadamente apreendido, para que possamos compreender e, por assim dizer, cobrir todos os aspectos, temos todos que dizer que não pode¬mos dar uma definição de divindade. Neste sentido, definir Deus seria restringí--Lo. Mas a palavra definição é usada em outros sentidos. Há dois sentidos princi¬pais pêlos quais podemos responder afirmativamente à questão, f 1) Uma enume¬ração dos atributos ou predicados essenciais de qualquer ser, substância ou coisa. (2) A definição lógica, que consiste de dar-se o genus e differentia de qualquer sujeito. Nesses dois casos, podemos conseguir uma apreensão pelo menos apro¬ximada do que Deus é". H.B. Smith, System of Christian Theology (Sistema da Teologia Cristã) (New York: A.C. Armstrong and Son, 1897), pág. 7.
Em nenhum dos dois sentidos a definição é completa mas não é por isso inexata. Podemos conhecer uma coisa corretamente até onde a conhecemos, mesmo que não a conheçamos completamente. Certamente podemos apresentar os atributos de Deus que foram revelados ao homem, e estes devem ser considerados verdadeiros. Podemos também estabelecer o genus a que Deus pertence e notar as differentia que O tornam diferente dos outros do mesmo genus. Uma cadeira e' um assento: isto é estabelecer o genus. É um assento móvel (simples) para uma só pessoa com um encosto: isto é estabelecer a differentia. Um banquinho também é um assento para uma só pessoa, mas não tem encosto; um banco é um assento longo, que normalmente acomoda duas ou mais pessoas. Assim, podemos dizer que Deus e' um Ser e então indicar as maneiras em que Ele difere dos outros seres.
O Breve Catecismo de Westminster diz: -"Deus é espírito, infinito, eterno, imutá¬vel, em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade, verdade". Resposta à
4? Pergunta, Chás. Hodge diz que é provavelmente a melhor definição de Deus jamais escrita pelo homem. Chás. Hodge, Systematic Theology (Teologia Sistemática) (Grand Rapids; Wm. B. Eerdmans Publ. Co. 1946).
Maríensen declara os elementos de sua definição de Deus assim: Deus é um Es¬pírito (João 4: 24). Sendo um Espírito, Ele Se revela em primeiro lugar como "o Se¬nhor", porém nïo apenas "o Senhor que Se mantém distinto e separado do mundo", mas "Amor" eterno que reconcilia o mundo Consigo mesmo (I João 4:16) H. Marten-sen, Christian Dogmatics (Dogmática Cristã) (Edinburgh: T. and T. Clark, 1866) pág.
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Miley diz: "Deus é um Ser pessoal eterno, de conhecimento, poder e bondade absolutos". John Miley, Systematic Theology (Teologia Sistemática) (New York: Hunt and Eaton, 1893), I, 60, Mas sua definição é deficiente pois omite diversos dos notáveis atributos de Deus, como sejam Sua espiritualidade e santidade.
H.B. Smith diz: "Deus é um Espírito, absoluto, pessoal e santo, infinito e eterno em seu ser e atributos, a razão e causa do universo". Op. cit., págs. 11, 12.
Strong diz: "Deus é o Espírito infinito e perfeito em quem todas as coisas têm a sua fonte, apoio e fim". Op. cit., pág. 52. Para uma definição curta e abrangente, esta é provavelmente a melhor.
II. A Existência de Deus
Provamos no Capítulo II que Deus Se revelou e que o homem tem a capacidade de apreender esta revelação. Devemos agora proceder à enumeração dos argumentos em favor da existência de Deus.
Eles se dividem em três largos grupos e vamos agora examiná-los.
1. A Crença na Existência de Deus é Intuitiva. Ë uma primeira verdade vindo logicamente antes da crença na Bíblia. Uma crença é intuitiva se for universal e ne¬cessária. Kant diz: "A necessidade e a universalidade são testes infalíveis para se di¬ferenciar entre o conhecimento puro e o empírico, e são inseparavelmente ligadas uma à outra". Immanuel Kant, The Critique of Puré Reason (A Crítica da Razão Pura) (London: George Bell and Sons, 1887), pág. 3. Tanto a Escritura como a his¬tória provam que a crença em Deus é universal. Paulo afirma que "porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles (ímpios) porque Deus lhes manifes¬tou . . . por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpá¬veis; porquanto, tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças . . . (Rm. l: 19-21)". Hodge, Op- cit. I, 195. Ele diz que mesmo os mais depravados sabem que os que vivem no pecado "são passíveis de morte'.1 (Rm. l: 32), e que todos os homens têm ~'a norma da lei gravada em seus corações" (Rm. 2: 15).
A História mostra que o elemento religioso de nossa natureza é tão universal quan¬to o racional ou o social. Fr. Schmidt, o antropologista, diz: "Este Ser Supremo é en¬contrado entre todos os povos das culturas primitivas, na verdade não da mesma forma ou com o mesmo vigor, mas ainda assim suficientemente proeminente em toda parte para tornar indubitável sua posição de destaque". Wm. Schmidt, The Origin and Growth of Reíigion (A Origem e Crescimento da Religião) (New York: The Dial Press, Inc., 1935) pág. 257. A declaração de Moffat de que na África algumas tribos eram destituídas de qualquer religião foi, de acordo com Strong, corrigida por seu genro, David Livingstone, por ter dito: "A existência de Deus e de uma vida futura é reconhe¬cida por toda a África". Op. cit., pág. 56. Schmidt diz: "W. Tessmann fez recentemente a última tentativa para encontrar 'homens sem um deus' entre os índios de Ucayali, mas isto foi enfaticamente rejeitado pela crítica etnológica". Op. cit., pág. 58.
A crença na existência de Deus é também necessária. Ë necessária no sentido de que não podemos negar Sua existência sem violentarmos as próprias leis da nossa na¬tureza. Se a negarmos, essa rejeição é forçada e só pode ser temporária. Assim como o pêndulo de um relógio pode ser empurrado para longe do centro por uma força in¬terna ou externa, também um homem pode ser empurrado para longe de sua crença normal na existência de Deus, Mas assim corno o pêndulo volta â sua posição original quando a pressão é removida, também o homem volta à sua crença normal em Deus quando não está conscientemente sob a influência de uma falsa filosofia. Hodgediz: "Sob o controle de uma teoria metafísica, o homem pode negar a existência de um mundo externo, ou a obrigação da lei moral; e sua crença pode ser sincera, e, durante certo tempo, persistente, mas no momento em que as razões especula¬tivas de sua descrença não mais estiverem presentes em sua mente, ela reverte ne¬cessariamente às suas convicções originais e normais. É tambe'm possível que a mão de alguém fique tão endurecida ou cauterizada a ponto de perder sua sensi¬bilidade, mas isso não provaria que a mão humana nã~o seja normalmente o grande órgão de toque". Op. cit., I, 197, 198.
Esta crença universal e necessária é intuitiva. Ela não pode ser explicada como a dedução necessária da razão, com base no fato de que a evidência a favor de Sua exis¬tência é tão óbvia que a mente é constrangida a aceitá-la pois apenas as pessoas mais cultas sío capazes deste tipo de generalização, e tanto o agnosticismo quanto o ateís¬mo sâ"o mais frequentemente encontrados entre as pessoas cultas do que as mais in¬cultas, que nío foram treinados na arte do raciocínio. Tampouco pode ser explicada como resultante simplesmente da tradição. Admitimos que as revelações mais antigas de Deus têm sido passadas de geração para geração, mas não cremos que esta é a expli¬cação completa da crença. A Bíblia declara que a lei de Deus esta' escrita no coração do homem (Rm. 2:14-16), e também achamos que a teoria nío explica a força da crença no homem.
2. A Existência de Deus é Assumida pelas Escrituras. Já mostramos diversas ve¬zes que na Bíblia é ponto pacífico o fato de todos os homens crerem na existência de Deus, Por isso, ela não tenta provar Sua existência. Evans diz: "Não parece ter ocor¬rido a nenhum dos escritores do Velho ou do Novo Testamento tentar provar ou argu¬mentar em prol da existência de Deus. Em toda a Bíblia esse fato é aceito sem ser questionado". Wm. Evans, The Great Doctrines of the Bible (As Grandes Doutrinas da Bíblia) (Chicago: The Bible Institute Colportage Associati^n, 1912) pág. 13. As Escrituras começam com esta declaração majestosa: "No princípio ... (Gn, l: 1), e continuam ale o fim assumindo Sua existência (Gn. l: 3, 4, etc.). Textos como SI. 94: 9, 10; Is. 40: 12-31 não são provas da existência de Deus, mas sim relatos analí¬ticos de tudo que está incluído na ideia de Deus, e admoestações para se reconhe-cé-Lo em Sua natureza Divina.
Não apenas isso, mas as Escrituras tampouco argumentam ou provam que Deus possa ser conhecido, nem ainda especulam sobre como o conhecimento de Deus sur¬giu na mente dos homens. Davidson diz: "Como poderiam os homens pensar em argumentar que Deus pudesse ser conhecido quando já estavam persuadidos de co¬nhecê-lo, quando sua consciência e toda sua mente estavam cheias e iluminadas com
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pensamentos sobre Ele, e quando, atrave's de Seu Espírito, Ele os tocava e esclarecia, e guiava toda sua história". Op. cit., pág. 34. Eles tinham as revelações geral e espe¬cial de Deus e estas eram as bases para sua certeza.
3. A Crença na Existência de Deus é Corroborada por Argumentos. Muitas pes¬soas afirmam que Kant mostrou que todos os argumentos racionais absolutamente nada sabem; mas o próprio Kant não reivindica isso. Ao inve's disso, ele admite que "apesar da razão especulativa estar longe de ser suficiente para demonstrar a existên¬cia de um Ser Supremo, é de mais alta utilidade para corrigir nosso conceito desse ser - supondo que possamos chegar a conhecê-lo por algum outro meio". Op. cit., pág. 392. Ao nos aproximarmos do estudo desses argumentos precisamos, entretanto, ter o seguinte em mente: (a) Que não sâ"o provas independentes da existência de Deus, mas antes corroboracões e exposições de nossa convicção inata de Sua existência; (b) que, como Deus ê um Espírito, não devemos insistir no mesmo tipo de prova que exigimos para a existência de coisas materiais, mas apenas na evidência que seja apro¬priada para o objetivo da prova; e (c) que a evidência e' cumulativa, um único argu¬mento em favor da existência de Deus sendo inadequado, mas diversos deles juntos sendo suficientes para prender a consciência e levar à crença. Voltamo-nos, portanto, para um breve estudo destes argumentos.
(1) O Argumento Cosmológico. Este argumento pode ser enunciado assim: Tudo que foi começado tem que ter uma causa adequada; o universo foi começado, portanto o universo deve ter uma causa adequada para ter sido produzido. A premissa principal está subentendida em Hb,3:4: "Pois toda casa é estabelecida por alguém, mas aquele que estabeleceu todas as coisas é Deus". Com exceção de Hume e seus se¬guidores, e de alguns cientistas em tempos recentes, esta premissa não é contestada. Hume a rejeitou porque não pode ser provada racionalmente. Mas o estudo de seus escritos mostra que ele se contradiz e que, como o resto de nós, eje no final das contas crê em causa na base da intuição. David Hume, A Treatise of Human Nature (Um Tra¬tado sobre a Natureza Humana) (London: J.M. Dent &Sons, Ltd, 1928), I, 95; An Enquiry Concerning Human Understanding (Uma Indagação a Respeito da Compreen¬são humana) (Chicago; The Open Conrt Publishing Co., 1926), pág. 143. Alguns cien¬tistas, .eliminando a possibilidade da atividade de Deus, concluem que quando não conseguem descobrir qualquer causa física, provavelmente não há nenhuma. Assim, a premissa principal continua válida.
A premissa secundária é contestada por muitos. Eles afirmam ou que o universo é eterno ou que tem sido eternamente criado. Mas os cálculos de certos geólogos e an¬tropólogos da grande era do homem sïo contraditos por estudiosos como Zahrn, Dawson, Wright, Paítison e Pfaff. Alex Patterson, The Qther Side of Evolution (O Ou¬tro lado da Evolução), (Chicago: The Bible Institute Colportage Association, 1903). págs. 88-97. A astronomia mostra que houve grandes mudanças no espaço sideral e a geologia que houve grandes mudanças na terra. Tudo isto mostra que a ordem presen¬te não é eterna. Além disso, a existência do mundo é contingente, i. e., dependente. O próprio Kant diz: Baseado na suposiçïo de que alguma coisa existe, nío posso evi¬tar a conclusão de que ela existe por necessidade". Op. cit., pág. 378. Na página se¬guinte desta obra, ele admite a natureza dependente do mundo. Cada parte é depen¬dente de outras partes e permanece em uma definida relação a elas. Pode o todo ser auto-existente quando as diversas partes que o compõem sffo dependentes? Há tam¬bém sucessão nos efeitos. Causas produzem efeitos, mas elas mesmas são os efeitos de alguma outra coisa. Deve, portanto, haver Uma Causa Primeira, ou uma série eterna de causas. Mas essa última é inconcebível. Stirling diz: "Se cada elo da corrente esti¬ver pendurado em outro, o todo estará pendurado e apenas pendurado mesmo na eter¬nidade, solto, como uma serpente rígida, a menos que se encontre um gancho para ela. Acrescente fraqueza a fraqueza, em otiatquer quantidade, e você nunca conseguirá força". J.H. Stinling, Philosophy and Theology (Filosofia e Teologia) (Edinburgh: T &T Clark, 1890), pág. 262. Lembramos novamente o leitor da declaração de James Jean que o universo está deteriorando. Se está deteriorando, então não é auto-susten-tado; e se não é auío-sustentado, então deve ter tido um princípio. James Jeans, The Mysterious Universe (O Universo Misterioso) (New York: The Macmillan Compa-ny, 1933) págs. 180, 181.
O que é que este argumento prova? Não apenas que há um ser necessário, quer neste mundo, quer fora dele, pessoal ou impessoal; mas como Hodge afirma, eíe "pra¬ticamente prova que este ser é extra-terreno pois o princípio das causas é o de que tu¬do que é contingente, tem que ter a causa de sua existência fora de si próprio". Op. cit., I, 215. E como Shedd diz, devido "ao mundo da mente finita ser parte do uni¬verso", a causa Primeira deve ser inteligente. Op. cit., I, 242. Portanto, concluímos que o argumento que o universo foi trazido à existência por uma causa adequada; ele também prova razoavelmente que esta causa estava fora do universo e era inteli¬gente. As últimas duas ideias são, entretanto, mais claramente estabelecidas pêlos ar¬gumentos subsequentes apresentados.
(2) O Argumento Teológico. O argumento teológico pode ser enunciado assim: Ordem e organização útil em um sistema evidenciam inteligência e propósito na causa que o originou; o universo é caracterizado por ordem e organização útil; portanto, o universo tem uma causa inteligente e livre. A premissa principal é sugerida pelo SI. 94: 9: "O que fez o ouvido, acaso não ouviria? O que formou os olhos, será que nâ"o enxerga?" Tem sido, em verdade, alegado que pode haver ordem e organização útil sem plano, isto é, essas coisas podem resultar de operação da lei ou acaso. Mas a natu¬reza dependente das leis da natureza, exclui a primeira ideia. Essas leis não são auto--Originadas nem auto-sustentadas; elas pressupõem um legislador e alguém que susten¬te a lei. A lei da gravitação, por exemplo, não é auto-expücativa; ainda perguntamos "Por que ela age dessa maneira?" E a doutrina matemática das probabilidades desqua¬lifica a última. Shedd diz: "A probabilidade da matéria agir desta maneira não é uma em milhões. A adaptação natural, baseada nesta teoria, seria um fenómeno tão raro quanto um milagre". Op. cit., I, 246.
A premissa secundária é raramente disputada hoje. Até Kant diz: "Observamos no mundo sinais manifestos de uma organização muito proposital, executada com grande sabedoria e existente em um todo de conteúdo incrivelmente variado, e de uma extensão sem limites". Op. cit., pág. 384. Strong diz: "A premissa secundária axpressa um princípio básico de toda a ciência, a saber, que todas as coisas têm seus usos, que a ordem permeia o universo e que os métodos da natureza são racionais", Op. cit., pág. 77. As estruturas e adaptações nos mundos da planta e do animal, in¬cluindo o homem, indicam ordem e desígnio. Plantas, animais e o homem são cons¬truídos de tal forma que podem apropriar o aumento necessário, crescer, e reprodu¬zir-se segundo a sua própria espécie. Os planetas, asteróides, satélites, comeïas, meteo¬ros e constelações de. estreias são todos mantidos em seus cursos pelas grandes forças centrífuga e centrípeta do universo. O átomo apresenta uma organização ordeira de prótons, neutrons, deutrons, mesotrons, eléctrons, etc. Vemos então uma relação
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entre os mundos animado e inanimado. Luz, ar, calor, água e solo sSo fornecidos para a manutenção da vida das plantas e dos animais. A isto podemos acrescentar a unifor¬midade geral das leis da natureza, de maneira que o homem possa semear e colher suas lavouras e usar suas descobertas científicas para o progresso do seu bem estar.
O que prova este argumento? Tem sido alegado que tanto homens como animais possuem órgïos inúteis, "estruturas - vestígio", e que, portanto, o argumento teleoló-gico é inválido. Mas a ciência está sempre descobrindo que esses órgãos "inúteis" nã"o sa"o mais inúteis no final das contas, e a conjetura é que aqueles cujas finalidades ainda não foram descobertas podem também vir a tê-las. Kant disse que o argumento teleo-lógico pode, no máximo, demonstrar a existência de um arquiteto do mundo, não de um criador do mundo, a quem todas as coisas estão sujeitas". Op- cit., pág. 385. Mas apesar do que disse Kant, continuamos a afirmar que o argumento mostra não apenas que a Causa Primeira é inteligente e livre, mas também que está fora do universo;pois desígnio é visto emanando não simplesmente de dentro para fora, mas também é prin¬cipalmente de fora para dentro, pela adaptação de coisas externas aos organismos e pela disposição e organização ordeira de enormes corpos de matéria, separados por milhões e bilhões de quilómetros. Concluímos, portanto, que o argumento prova que a Causa Primeira é inteligente, livre, extra-terrena, e incompreensivelmente grande.
(3) O Argumento Antológico. Como é comumente enunciado, este argumento encontra na própria ideia de Deus a prova de Sua existência. Afirma que todos os ho¬mens têm a ideia de Deus intuitivamente, e uaí tentam encontrar prova de Sua existên¬cia na própria ideia. Anselmo (1033-1109), Descartes (1596-1650) e Clarke (1675-1729) declararam isso, cada um de uma maneira diferente. Nenhuma das declara¬ções é realmente satisfatória, mas a de Anselmo é melhor que a dos outros dois.
No Monologium, ele focaliza a questão da existência de Deus do ponto de vista da causa e efeito; no Proslogium ele a focaliza do ponto de vista da razão. Seu argu¬mento nesse último pode ser enunciado assim: Temos a ideia de um Ser absolutamen¬te perfeito: mas existência e' um atributo da perfeição; um Ser absolutamente perfei¬to deve portanto existir. Mas isto é pouco mais que um sofisma lógico. Kant disse: "É evidente, pelo que foi dito, que o conceito de um ser absolutamente necessário é uma mera ideia, da qual a realidade objetiva está longe de ser estabelecida pelo mero fato de ser uma necessidade da razão". Op. cit., pág. 364. Concordamos que não po¬demos deduzir existência real de mero pensamento abstrato; a ideia de Deus não trás em seu bojo a prova de Sua existência. Mas apesar do argumento ontológico não pro¬var a existência de Deus, ele mostra o que Deus deve ser, se Ele existir. Como os argu¬mentos cosmológicos e teológicos já provaram a existência de uma Causa e Planejador pessoal, externo ao universo, o presente argumento prova que este Ser é infinito e perfeito, não por serem suas qualidades notoriamente dEle, mas porque nossa cons¬tituição mental nâ"o nos permitirá pensar de outra maneira, Strong, Op. cit., pág. 87.
Orr acha que T-H. Green enunciou da melhor maneira possível este argumento. Green afirma que "o pensamento é necessário prius de tudo o que é - ate' mesmo que toda existência possível ou concebível". Ele declara
"que a razão é a fonte dos princípios universais e necessários que brotam de sua essência e que são as condições para todo conhecimento possível. Mas isto, sua própria natureza essencial, a razão encontra refletida pelo mundo ao seu redor. Um mundo existe, constituído através destes próprios princípios que encontra¬mos dentro de nós mesmos — em espaço e tempo, através de número e quantidade, substância e qualidade, causa e efeito etc., - e portanto conhecível para nós, e capaz de se tornar um objeto de nossa experiência. Chegamos, portanto, a isto — que o mundo é constituído através de uma razão semelhante à nossa". The Christian View of God and the World (A Visão Cristã de Deus e do Mundo) (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publ. Co., 1948) págs. 104-106.
Mas estas condições universais e necessárias de toda verdade e conhecimento não têm a base de sua existência em minha mente individual; tem sua sede e base em uma Razão absoluta — O Prius absoluto de tudo que é. Ibid.
(4) O Argumento Moral. Kant mostra que as provas teóricas não podem nos dar nenhum conhecimento de Deus como um Ser moral; para isto, dependemos da Ra¬zão Prática. Ele afirmou que o fato da obrigação e do dever era pelo menos tão garan¬tido como o fato da existência. Com base na consciência, ele argumenta ern favor da liberdade, imortalidade e Deus. A Bíblia apela também para o argumento moral para provar a existência de Deus (por ex. Rm. 1: 19, 32; 2:14-16). Strong assim enuncia o argumento:
A consciência reconhece a existência de uma lei moral que tem autoridade suprema; violações conhecidas desta lei moral são acompanhadas de sentimen¬tos de desmerecimento e medo do julgamento; esta lei moral, como não é auto--imposta, e estas ameaças de julgamento, como não são auto-executáveis, argumen¬tam respectivamente em favor da existência de uma vontade santa que impôs a lei, e de um poder punitivo que executará as ameaças de natureza moral ... A . vontade expressa no imperativo moral é superior à nossa, pois de outra forma nïo emitiria ordens. Op. cit.,págs. 82, 83.
Primeiro de tudo, essa lei moral permanente existe, e ela possui autoridade supre¬ma e permanente sobre nós. Os evolucionistas não gostam de admitir isto. Eles gos¬tam de pensar em tudo como se fosse fluido em constante mudança. Mas que a cons¬ciência não é auto-imposta nem se desenvolveu a partir de nossos instintos através de nossa vida em sociedade é evidente pelo fato de que o sentimento de obrigação não leva em consideração nossas inclinações, prazeres ou fortunas, nem as práticas da sociedade, -mas está frequentemente em conflito com elas. Entretanto, a cons¬ciência, não nos diz o que fazer; simplesmente insiste que há uma lei moral fundamen¬tal no universo e que é nosso dever observá-la. Em segundo lugar, violações conhecidas desta lei moral são acompanhadas de sentimentos de desmerecimento e temor de jul¬gamento. Davi é um bom exemplo disto na Bíblia (31.32:3,4; 38: 1-4). Agostinho testifica a respeito da mesma coisa. Ele diz: "Estava assim oprimido e atormentado, acusando-me a mim mesmo com muito mais severidade do que meu costume, rolando e me debatendo em minhas cadeias, ate' que estivessem completamente despedaçadas, pelas quais eu só não era justo, mas ainda preso". The Confessions of St. Augustine (As Confissões de Sto. Agostinho) (New York: E.P. Dutíon and Co., Inc. 1932), VIII. xí, 25. Shakespeare mostra como Lady Macbeth foi perseguida por uma consciência maléfica após o assassinato do Rei Duncan, mesmo durante seu sono. Macbeth, Ato V, Cena I.
Devemos concluir portanto que como esta lei moral não é auto-imposta e esse te¬mor de julgamento não é auto-executável, existe uma vontade santa que impõe esta lei e um poder punitivo que executará as ameaças de nossa natureza moral. Nossa cons¬ciência clama: "Ele te declarou, ó homem,.o que é bom; e que é o que o Senhor pede de tf (Miquéias 6: 8); e "Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras até as que
estão escondidas, quer sejam boas. quer sejam más" (Ec. 12:14). Em outras palavras, a consciência reconhece a existência de um grande Legislador, Deus, e a certeza do cas¬tigo para toda violação de Sua lei".
(5) O Argumento da Congruidade. Este argumento é baseado na crença de que o postulado que melhor explica os fatos relacionados é provavelmente verdadeiro. No que se refere à presente discussão, ele é enunciado assim: A crença na existência de Deus melhor explica os fatos de nossa natureza mental, moral e religiosa, bem como os fatos do universo material; portanto Deus existe. Ele afirma que sem este postula¬do os fatos relacionados são realmente inexplicáveis. É este um argumento válido?
Respondemos que este tipo de argumento tem dado resultados maravilhosos na ciência. Perciva! Lowell havia notado certas variações nos movimentos de Netuno. Ele concluiu que deveria haver algum grande corpo celeste na região que causava as suas variações. Estudos cuidadosos daquela parte dos céus com poderosos telescópios em 1930 levaram à descoberta do até então desconhecido planeta Plutão. Ê o membro mais longínquo do sistema solar. Este princípio pode ser também ilustrado no mundo microscópico. As partículas que formam um átomo não podem ser descobertas por ob¬servação diíeta: deduz-se a sua existência pêlos efeitos que produzem e as combina¬ções que forniam. Tanto em nossos estudos telescópicos quanto nos microscópicos assuminos que um postulado que explica e harmoniza os fatos relacionados é verda¬deiro. Será que não deveríamos concluir, por este mesmo principio, que existe um Deus, já que o postulado teísta está em harmonia com todos os fatos de nossa nature¬za mental, moral e religiosa, bem como com os fatos do universo material? Patton responde esta pergunta com uma afirmativa. Ele diz:
Sabemos que temos a chave errada quando ela não se encaixa em todas as frinchas da fechadura. Por outro lado, é argumento poderoso em favor da vera¬cidade de uma teoria o fato dela explicar todas as facetas de um caso. A crença em um Deus pessoal auto-existente está em harmonia com todos os fatos de nossa natureza moral e mental bem corno com todos os fenómenos do mundo material. Se Deus existe, uma crença universal em sua existência é bem natural; o impulso irresistível de buscar uma causa primeira esta explicado; nossa natureza religiosa tern um objeto; a uniformidade da Lei natural encontra uma explicação adequada e a história humana se redime da acusação de ser uma imensa impostura. O ateís¬mo deixa todos esses aspectos sem qualquer explicação, e faz não apenas da his¬tória, mas de nossa própna natureza intelectual, uma impostura e uma mentira. Francis L. Patton, A Summary of Christian Doctrine (Um Sumário da Doutrina Cristã) (Philadelphia: The Westminster Press, 1911), pág. 15 segs. Podemos concluir, portanto, também por este argumento, que um Deus pessoal, extra-terreno, ético e auto-revelador existe.

CAPITULO Vlll
A Natureza de Deus: Essência e Atributos
Já observamos muitas das características de Deus em nosso estudo da revelação de Deus e as provas de Sua existência. Mas elas nos apareceram bem indiretamente e na~o sistematicamente; e alguns dos fatos mal foram observados. Devemos portanto agora examinar o assunto diretamente e mais plenamente, e colocar o material em um sistema organizado. Iremos, portanto, tratar neste capítulo da natureza de Deus: essência e atributos.
I. A Essência de Deus
Os termos "essfincia" e "substância" são praticamente sinónimos quando usados a respeito de Deus. Eles podem ser definidos corno aquilo que está implícito em toda manifestação externa; a própria realidade, quer material, quer imaterial; o substrato de tudo aquilo no qual as qualidades ou atributos são inerentes. Os dois termos se refe¬rem ao aspecto básico da natureza de Deus: se não houvesse essência ou substância, não poderia haver atributos. Vamos deixar bem claro, então, que quando falamos de Deus, falamos de uma essência, uma substância, não de uma simples ideia ou personi¬ficação de uma ideia.
Como há, então, uma diferença entre a essência e os atributos de Deus, deparamo--nos com a questão de como distinguir entre as duas coisas. H.B. Smith reconhece o fato de que talvez alguns dos chamados atributos na"o sejam, "estritamente falando", realmente atributos, mas sim "partes diferentes de uma substância divina". Entre es¬ses, ele inclui a espiritualidade, a autonomia de existência, a imensidão e a eternidade. H.B. Smith, Op. cit., pág, 16. Concordamos com isso e trataremos, portanto, dessas qualidades da maneira acima referida.
1. Espiritualidade, Já dissemos que Deus é uma substância. Na~c é, entretanto, uma substância material, mas sim espiritual. Jesus disse: "Deus é espírito" (JoSo4: 24). Em grego, não existe o artigo. A declaração define a natureza de Deus como sendo espiritual. Sabemos alguma coisa a respeito da natureza dos espíritos finitos através de nossa própria auto-consciéncia, mas conhecemos a natureza do Espírito Infinito apenas por analogia, e portanto, apenas imperfeitamente. Diversas coisas estão, no entanto, claramente envolvidas na ideia de que Deus é espírito, e as estuda¬remos brevemente.
(1) Ele é Imaterial e Incorpóreo. Jesus disse: "... um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho" (Lucas 24: 39). Se, portanto, Deus é espírito. Ele tern que ser imaterial e incorpóreo- Ele não é nem mesmo matéria refinada, como a que os antigos filósofos atribuíam às almas; mas é uma substância imaterial e incor¬pórea. Que dizer das expressões que mostram Deus como tendo partes do corpo: mãos (Is.65:2; Hb.l:10); pés(Gn.3:8; SI.8:6); olhos (I Reis 8:29; IICr.16:
9); ouvidos (Ne 1:6; SI. 34:15)? Hás sSo representações antropomórficas e sim¬bólicas para trazer o infinito ao alcance da apreensão do finito. Elas servem para tor¬nar Deus, real e para expressar Seus vários interesses, poderes e atividades.
(2) Ele é Invisível. Sabemos que os Israelitas não viram "aparência nenhuma" quando o Senhor lhes apareceu no Horebe, e portanto não deveriam fazer para si ima¬gens dEle (Dt. 4:15-19). Deus disse a Moisés que homem algum poderia vé-Lo e con¬tinuar vivo (Êx. 33: 20); e João disse: "Ninguém jamais viu a Deus" (João 1:18). Paulo se referiu a Ele como "o Deus invisível" (Rm. 1:20; Cl. 1:15; ITm. 1:17), e declarou que nenhum homem jamais O viu ou poàe vê-Lo (I Tm. 6:16). Algumas passagens, entretanto, indicam que os remidos O verSo algum dia (SI. 17:15; Mt. 5: 8; Hb-12:14; Ap.22:4).
Mas o que dizer das passagens que falam de terem homens visto Deus? Por exem¬plo: Gn.32:3Q; Êx.3:6; 24:9,10; Nm. 12:6-8; Dt. 34; 10; Is. 6:1. Torrey ex¬plica: "Uma pessoa pode ver um reflexo de seu rosto em um vidro. Seria a verdade se ela disser: 'Vi meu rosto' e também se disser: 'Nunca vi meu rosto' ". R.A. Torrey, What the Bíble Teaches (O que a Bíblia ensina) (New YorkXFleming H. Recell Co., 1898); pág. 15. Assim também homens viram o reflexo^f Sua glória, mas não viram Sua essência. Cf. Êx. 33: 21-23; Hb. 1:3. O Espírito também pode ser manifestado de forma visível (João 1:32; Hb. l: 7). "O anjo do Senhor" foi uma manifestação da forma visível da divindade. Por exemplo: Gn.16: 7-14; 22:11-18; Ex. 3:2-5; Juizes 6: 11-23; IReisl9:5-7; I Reis 19:3-5; especialmente Gn. 18: 13-33.
(3) Ele é Vivo. A ideia de espírito exclui não apenas a ideia de substância mate¬rial como também a de substância inanimada; ela dá a entender que Deus está vivo. Ele é, portanto, chamado de Deus "vivo" (Js. 3:10; I Sm. 17:26; 51.84:2; Mt. 16: 16; I Ts. l :9). Vida sugere sentimento, poder, atividade. Deus tem tudo isso, e é também a fonte de toda vida - vida vegetal, animal, humana, espiritual e eterna (João 5:26; SI.36:9). Ele é vivo enquanto que os deuses dos pagSos são mortos (SI. 115: 3-9).
(4) Ele é uma Pessoa. Hegel e os filósofos idealistas estão enganados ao apresen¬tar Deus como sendo um espírito impessoal, pois a própria ideia de espirito sugere per¬sonalidade.' A única maneira de se determinar com que um espírito se parece, fora dos ensinamentos da Escritura, é por analogia com nosso próprio espírito; e como o espí¬rito humano é pessoal, o Espírito Divino deve ser pessoal também, ou então Ele é de uma ordem de seres inferiores ao homem. No homem, a personalidade e corporalida-de estão unidas em um indivíduo por toda a duraçío desta vida. Com a morte, este relacionamento é quebrado: o corpo é levado à corrupção, mas a personalidade sobre¬vive. Na ressurreição, a personalidade ganha novamente um corpo e a constituição normal do homem é restaurada. Mas temos em Deus personalidade sem corporali-dade. O que é então a essência da personalidade? Auto-consciência e auto-determi-nação.
Auto-consciência é mais do que consciência. Como ser consciente, o homem tem às vezes sentimentos e apetites os quais ele não relaciona consigo mesmo; como tal, ele pensa espontaneamente, mas não pensa a respeito do que pensa. O animal irracional provavelmente pode fazer a mesma coisa. Mas como um ser auto-conscien¬te, o homem relaciona seus sentimentos, apetites e pensamentos a si mesmo. Da mes¬ma maneira, auto-determinaçSo é mais do'que determinação. A besta tem determi¬nação, mas é mecânica; mas o homem tem a sensação de liberdade e faz suas escolhas internamente, em razão de motivos e finalidades. Os escritores sacros atribuem tanto a auto-consciëncia (ÊX. 3:14; Is.45:5; I Co. 2:10) quanto a auto-detenrünaçïo (Jo. 23: 13; Rm.9:ll; Hb. 6: 17) a Deus. f
Eles também mostram Deus como tendo as características psicológicas da perso¬nalidade: Intelecto (Gn. 18:19; Êx.3:7; Atos 15:18), sensibüidade (Gn.6: 6; SI. 103:8-13; João 3: 16), e vontade (Gn. 3:15; SI. 115:3; João 6:38). Finalmente, eles atribuem qualidades e relações da personalidade a Deus. Mostram-no falando (Gn. 1:3), vendo (Gn. 11:5), ouvindo (SI. 94:9), arrependendo-Se (Gn. 6: 6), e irando-Se (Dt. 1: 37), zeloso (Êx. 20: 5), e compassivo (SI. 111:4). Dizem os escritores sacros que Ele é o Criador (Atos 14: 15), o preservador (Ne. 9: 6), o juiz (SI. 75:6-7; Dn. 4:32), e o sustentador (SI. 104: 27-30; Mt. 6: 26-30) de todas as coisas.
Devemos, entretanto, diferenciar entre a personalidade da essência e a das diver¬sas partes que constituem a essência. Evidentemente, a essência nã~o pode ser ao mes¬mo tempo três pessoas e uma só pessoa, se a palavra "pessoa" for usada no mesmo sen¬tido duas vezes; mas pode ser e é ao mesmo tempo três pessoas e um Ser pessoal. A existência de três pessoas distintas na Divindade resulta na auto-consciëncia e na auto--determinação da essência, mas também na auto-consciëncia e auto-determinação de cada uma das três pessoas.
2. Auto-existëncia. Com auto-existência queremos dizer que Deus baseia Sua existência em Si mesmo. Nós temos a base de nossa existência fora de nós mesmos, mas Deus não depende de coisa alguma além de Si mesmo para existir. Como disse Tomás de Aquino: "Ele é a 'causa primeira', sem ser causado". Sua auto-existëncia ê sugerida por Sua afirmação: "Eu sou o que Sou" (ÊX. 3:14) e está geralmente contida no nome "Jeová" (Êx. 6: 3). Entretanto, a auto-existëncia de Deus não é baseada na Sua vontade, mas sim na Sua natureza; Ele existe pela necessidade de Sua natureza. Nâ"o é correto dizer que Deus é Sua própria causa, pois se isso fosse verdade, Ele teria poder para aniquilar a Si mesmo.
3. Imensidão. Aqui, a imensidão de Deus significa Sua infinidade em relação ao espaço. Deus não é limitado ou circunscrito pelo espaço;ao contrário, todo espaço fi¬nito é dependente dEle. Ele existe, na realidade, além do espaço. As Escrituras ensi¬naram a imensidão de Deus, por exemplo, I Reis 8: 27; II Cr. 2:6; Jr.23:24; SI. 139: 7seg.; Is. 66: l; Atos 17: 28. Esta é uma ideia que temos dificuldade em apreender. Isto se deve à espiritualidade de Sua natureza e de nossa incapacidade para pensarmos em espaços ilimitados. No entanto, uma coisa fica bem clara: Deus é imanente e trans¬cendente, e está presente em todo lugar tanto em essência quanto em conhecimento e poder. Substância espiritual, como a alma, está presente, sempre que estiver, como um todo completo em todos os pontos.
4. Eternidade. Aqui, a eternidade de Deus significa Sua infinidade em relação ao tempo; significa que Ele não tem começo nem fim; que ele está livre de toda a passa¬gem de tempo; e que Ele é a causa do tempo. Podemos deduzir que Ele nSo tem come¬ço nem fim do fato de Sua existência necessária: Aquele que existe devido a Sua na¬tureza mais do que a Sua vontade, deve ter sempre existido e deve continuar a existir para sempre. A Escritura nos ensina abundantemente que Deus é eterno. Ele é chama¬do de "o Deus eterno" (Gn. 21:33), os salmistas dizem: "De eternidade a eternidade tu és Deus" (SI. 90: 2) e "tu porém és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim" (SI. 102: 27). Isaías apresenta Deus como "o Alto, o Sublime, que habita a eter¬nidade" (Is. 57: 15); Paulo diz: Ele é "eterno, imortal, Deus único" (I Tm. 1:17).
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Ele está livre de toda a passagem do tempo. Tempo, como normalmente o com¬preendemos, é duração medida por sucessão. Mas como diz Shedd, Deus "tem posse simultânea de Sua duração total... O todo do conhecimento e experiência divinos estão sempre diante do ser divino de modo que não há partes sucedendo partes". Op. cit.,1,343. A eternidade para Deus é um agora. Na Escritura ela é mencionada como "este dia" (SI. 2:7; cf. II Pé. 3: 8). Mas não devemos supor que o tempo, agora que ele existe, não tem uma realidade objetiva para Deus, mas antes, que Ele vê o passado e o futuro tão vividamente quanto vê o presente. Pode-se ver um desfile do alto de uma torre, de onde se pode vê-lo sm toda sua extensão de uma só vez, ou pode-se vê-ío de uma esquina, de onde só se pode vê-lo por partes. Deus tudo vê da primeira maneira, apesar de estar ciente da sequência do desfile.
Ele é também a causa do tempo (Hb. 1:2; 11:3), Tanto tempo quanto espaço estão entre todas as coisas que "foram feitas por intermédio dEle" (João l: 3). Strong diz: "No entanto, tempo e espaço não sío substâncias; tampouco são atributos (quali¬dades das substâncias); s3o mais relações da existência finita. Com" existência finita eles passaram a existir; não são apenas conceitos regulatórios de nossas mentes; exis¬tem obje ti vãmente, quer nos apercebamos deles ou não". Op. cit., pág. 275. O tempo algum dia se fundirá com a eternidade. Shedd pensa, entretanto, que para a criatura, a eternidade não será uma existência sem passagem de tempo; pois toda a mente fini¬ta deve pensar, sentir e agir dentro do tempo. Op. cit., I, 349.
H. Os Atributos de Deus
Com atributos de Deus, distintos da substância de Deus, queremos dizer as quali¬dades inerentes à substância e que constituem uma descrição analítica e mais próxima dela. Devem ser tidas como objetivamente reais e não simplesmente como a maneira subjetiva do homem conceber a Deus, e como descrições das maneiras específicas pelas quais a essência divina existe e opera, e não designando partes distintas de Deus. Os atributos são as differeníia do genus essência ou substância.
Várias classificações dos atributos têm sido feitas. Uma das mais conhecidas é a divisão em naturais, isto é, os atributos de Deus com relação a e em contraste com a natureza, e morais, isto é, Seus atributos como um governante moral. Outra divisão é em imanentes, isto é, aqueles que se relacionam a Deus como Ele e em Si próprio, e transitivos, isto é, aqueles pêlos quais Ele é revelado externamente em Suas relações com Sua criação. Uma terceira divisão é em positivos, pêlos quais certas perfeições sSo expressadas, e negativos, pêlos quais certas limitações são negadas. Uma quarta divisão é derivada da constituição de nossa própria natureza. Assim como no homem existe a substância da alma, do intelecto e da vontade, diz-se que também podemos arranjar os atributos de Deus sob crés títulos: aqueles que dizem respeito a Sua essên¬cia, os que se referem a Seu intelecto, e os relacionados à Sua vontade. Iremos divi¬di-los, entretanto, em nïo-morais e morais.
A. Os Atributos Náo-Morais
Com atributos não morais queremos dizer aqueles predicados necessários da essên¬cia divina que não envolvem qualidades morais. Acrescentaríamos, no entanto, que ele tem uma influência direta na conduta humana. Os atributos não-morais sã"o onipre-sença, onisciência, onipotëncia e imutabilidade. Estudá-los-emos na ordem indicada.
1. Onipresenca. Com onipresença de Deus queremos dizer Sua infinidade em relaçao às Suas criaturas. Por ser imenso, Deus é onipresente. A Bíblia ensina a onipresen-ça de Deus. Davi diz: "Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás;se faço minha cama no mais profundo abismo, lá estás também" (SI. 139: 7-12; cf. Jr. 23: 23, 24). Paulo diz que Eíe "não está ionge de cada um de nós. Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos" (Aios 17:27,28). Cf. Romanos 10:6-8.
A onipresença de Deus é uma fonte de conforto para o crente. Faber o diz maravilhosamente:
Pois Deus nunca está tão longe que possa mesmo estar perto. Ele está dentro (de nós). Nosso espírito é o lar que Ele mais aprecia. Pensar nEle ao nosso lado é quase tão falso quanto se removermos Seu santuário paia além daquele céu azul estrelado. Pois todo o tempo em que me julgava órfão, desamparado e desalen¬tado, tendo perdido minha alegria, andei peio mundo sendo eu mesmo o santuá¬rio de Deus.
A lembrança de Sua presença é dominante e encorajadora. Para o não crente, é uma fonte de advertência e repressão. Não importa quanto possa tentar, não conse¬gue fugir de Deus. Nem a distância nem a escuridão o escondem dEle: "E nâ~o há criatura que não seja manifesta na Sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos que prestar contas" (Hb.4: 13). A consciência di^íu muitas vezes detém o pecador em seus caminhos maus e o leva a buscar a Deus.
2. Onisciência. Com onisciência de Deus queremos dizer que Ele conhece a Si próprio e todas as outras coisas, quer sejam reais ou apenas possíveis, quer sejam pas¬sadas, presentes ou futuras, e que Ele as conhece perfeitamente e por toda a eternida¬de. Eie conhece as coisas imediata, simultânea, completa e verdadeiramente. Ele co¬nhece também as melhores maneiras de chegar aos fins desejados.
Sua onisciência é provada pelas evidências de desígnio na criação e de inteligên¬cia no homem. Estas evidências suo encontradas no mundo animado, no inanimado e na relação entre os dois mundos. Elas encontram sua expressão mais alta na inteligên¬cia do homem. É provada por Sua onipresença. Pv. 15: 3: "Os olhos do Senhor esta"o em todo lugar, contemplando os maus e os bons"; Jr. 23: 23-25: "Acaso sou Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também de longe? Ocultar-se-ia alguém em es¬conderijos de modo que eu não o veja? diz o Senhor; porventura nâ"o encho eu os céus e a terra? diz o Senhor"; cf. SI. 139: 1-10. É provada também pelas declarações ex¬pressas das Escrituras. Pv. 15: 11: "O além e o abismo estão descobertos perante o Senhor, quanto mais os corações dos filhos dos homens"; SI. 147:5: "Grande é o Senhor nosso, e mui poderoso; o Seu entendimento não se pode medir"; Is. 46: 10: "Que desde o princípio anunciou o que há de acontecer, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam"; Hb. 4: 13: "E não há criatura que não seja mani¬festa na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas"; Mt. 10. 30: "Até os cabelos todos da cabeça est3o contados".
Note a amplitude de Seu conhecimento. Antes de tudo, como diz Charnock: "Deus conhece a Si próprio, e apenas Ele conhece a Si próprio. Este e' o conhecimen¬to primordial e original, no qual Ele ultrapassa todas as criaturas. Nenhum homem conhece completamente a si próprio, e muito menos compreende completamente a natureza de um espírito; muito menos ainda a natureza e a perfeição de Deus". Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God (A Existência e Atributos de
Deus) (London: Religious- Tract Society, L834), I, 523. Isto é comprovado pelo que Jesus disse: "Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar" (Mt. 11: 27); e Paulo diz: "Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito que nele está? assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus'1 (I Co. 2: 11). Isto é, o Pai, o Filho e o Espírito se conhecem uns aos outros perfeitamente, e apenas Eles têm tal conhecimento a Seu próprio respeito.
Deus também conhece coisas que realmente existem; como criação inanimada (SI. 147:4), criação irracional (Mt. 10:29), o homem e toda sua obra (SI. 33: 13-15), os pensamentos e o coração do homem (SI. 139: 1-4), e aquilo de que o homem ne¬cessita (Mt. 6: S, 32). Eíe também conhece todas as coisas possíveis; como Ele sabia que Queila entregaria Davi nas mãos de Saul, se ele permanecesse naquelas paragens (I Sm. 23: 11, 12); como Jesus sabia que Tiro e Sidom teriam se arrependido se tives¬sem visto os milagres realizados em Betsaida e Corazim (Mt. 11:21) e que Sodoma e Gomorra teriam sido poupadas se tivessem visto as obras que foram feitas em Cafar-naum (Mt. 11: 23. 24). Certos idealistas negam a distinção entre conhecimento e po¬dei, afirmando que conhecimento e pensamento sempre significam exercer o poder criativo. De acordo com isto, Deus cria por pensar e conhecer. Mas a posse de uma faculdade e o exercício da rnesma são duas coisas diferentes. Portanto Deus tem co¬nhecimento do que é possível assim como do que é real.
Deus também conhece o futuro. Do ponto de vista do homem, o conhecimento que Deus tem do futuro é presciência, mas não do de Deus, pois Ele sabe todas as coi¬sas através de uma intuição simultânea. Ele prevê o futuro em geral (Is. 46: 9, 10; Dn.2e7; Mt.24e25; Atos 15: 18), o mau rumo que Israel iria seguir (Dt. 31: 20, 21), a vinda e a obra de Ciro (Is. 44: 26 -45: 7), a vinda do Messias (Mq. 5: 2), o fato de que homens maus haveriam de crucificá-Lo (Ap. 13:8; Atos 2: 23; 3:18), etc. Mas presciência não é causativa em si mesma; não devemos confundir previsão com a vontade predetermina do r a de Deus. Atos livres não ocorrem por terem sido previs¬tos, mas são previstos porque ocorrerão. Hodge diz: "É evidente que se pode ter cer¬teza absoluta a respeito de atos livres, pois têm sido previstos em um sem número de casos". Op. cit., 1,401.
Sabedoria é a inteligência de Deus aparente na escolha dos mais altos fins e dos melhores meios para atingir a esses fins. Apesar de Deus sinceramente tentar promo¬ver a felicidade de Suas criaturas e aperfeiçoar os santos em santidade, nenhum desses é o fim supremo. Esse fim é a Sua própria glória. Todas Suas obras na criação (SI. 19:1-6; 104; Pv. 3: 19), preservação (Ne. 9: 6; Ap. 4: 11), providência (SI. 33: 10, 11; Dn. 4: 35; Ef l: 11), e redenção (I Co. 2: 7, Ef. 3: 10) têm esta ideia em mente.
3. Onipoténcia. Com onipoténcia de Deus queremos dizer que Ele pode fazer o que desejar, mas como Sua vontade é limitada por Sua natureza, isto significa que Ele pode fazer qualquer coisa que esteja em harmonia com Suas perfeições. Há algumas coisas que Deus não pode fazer: (1) As que forem contrárias à Sua natureza como Deus, como por exemplo, ver o mal (Hab. l: 13), negar-se a Si mesmo (ÏI Tm. 2: 13), mentir (Hb. 6: 18), ou praticar pecado (Tiago l: 13), e (2) as que forem absurdas ou auto-contraditórias, como por exemplo, fazer um espírito material, uma pedra sensí¬vel, um círculo quadrado, etc. Estes não são objetos de poder e portanto não indicam nenhuma limitação da onipoténcia de Deus. t • A posse da onipoténcia não implica, entretanto, no exercício de Seu poder, cerlamente nâ"o no exercício de todo o Seu poder. Deus pode fazer o que desejar, mas Ele não precisa desejar fazer qualquer coisa. Isto é, Deus tem poder sobre Seu poder; se assim não fosse, Ele agiria movido peia necessidade e deixaria de ser um Ser livre. Tampouco exclui a onipotëncia o poder de auto-limitaçâb, mas antes esse poder está nela contido. Deus Se auto-limitou até certo ponto pelo livre arbítrio de Suas criatu¬ras racionais. É por isso que Ele não manteve o pecado fora do universo exercitando Seu poder; é por isso também que Ele não salva ninguém a força.
As Escrituras ensinam claramente a onipotëncia de Deus. Como vamos dedicar o décimo segundo capítulo a um estudo do poder soberano de Deus, nos limitaremos aqui a uns poucos comentários sobre esse assunto. "Eu sou o Deus todo poderoso" (Gn. 17: í); "Bem sei que tudo podes e nenhum dos Teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2); "Ah! Senhor Deus! eis que fizeste os céus e a terra corn o Teu grande po¬der e com o Teu braço estendido; coisa alguma Te é demasiadamente maravilhosa" (Jr. 32: 17; cf. v. 27); "Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possí¬vel" (Mt, 19:26); "Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as Suas pro¬messas" (Lucas 1: 37); "Aleiuiai pois reina o Senhor nosso Deus, o todo poderoso" (Ap. 19:6).
Faz-se às vezes uma distinção entre o poder absoluto de Deus e Seu poder orde¬nado. De acordo com Hodge, o poder absoluto de Deus é a eficiência divina confor¬me exercida sem a intervenção de causas secundárias. Ele enumera a criação, os mila¬gres, a revelação imediata, a inspiração e a regeneração como manifestações de Seu po¬der absoluto. Ele define o poder ordenado de Deus como sendo a "eficiência de Deus, conforme exercida uniformemente na operação ordenada das causas secundárias". Ele classificou toda a obra providencial de Deus como manifestação do Seu poder ordenado. Op. cít.. I, 410. O importante a se observar é que a eficiência divina opera sem a intervenção de causas secundárias e também na operação ordenada de tais cau¬sas.
Repetidamente insta-se com o crente para confiar em Deus em todos os caminhos da vida com base em Seu poder criativo, preservador e providencial (Is.45:11-13; 46:4; Jr. 32: 16-44; Atos 4: 24-31). Para o cristão, a onipotëncia de Deus é uma fonte de grande conforto e esperança. Mas para o descrente, um Deus tão poderoso é uma sempre presente advertência e fonte de medo, que treme, com razão, à lem¬brança de Seu nome e Sua Palavra (SI. 99:1; Is. 66:5). Os demónios crêem, e estremecem (Tiago2:19), pois sabem que Deus tem poder sobre eles (Mt. 8:29). Um dia, mesmo os mais poderosos e os maiores tentarão se esconder dEle (Ap. 6: 15-17) e todo joelho se dobrará ao nome de Jesus (Fp. 2: 10).
4. Imutabilidade. Com imutabilidade de Deus queremos dizer que em essência, atributos, consciência e vontade, Deus é imutável. Todas as mudanças têm que ser para o melhor ou para o pior. Mas Deus não pode mudar paia o melhor, pois é abso¬lutamente perfeito; nem pode tampouco mudar para o pior, pela mesma razão. Ele é exaltado acima de todas as causas e mesmo da possibilidade de mudança. Ele nunca poderá ser mais sábio, mais santo, mais justo, mais misericordioso, mais verdadeiro, nem menos. Tampouco mudam Seus planos e propósitos.
A imutabilidade de Deus se deve a simplicidade da essência de Deus. O homem tem corpo e alma, duas substâncias; mas Deus só tem uma, portanto Ele não muda. Deve-se também à Sua existência necessária e auto-suficiente. Aquilo cuja existên¬cia não é causada, por necessidade de sua natureza, tem que existir como existe. De-
ve-se também à Sua perfeição. Qualquer mudança em Seus atributos O tornaria menos Deus; qualquer mudança em Seus propósitos e planos O tornaria menos sábio, bom e santo. Mas imutabilidade não significa imobilidade. Algumas pessoas parecem pensar que por ser imutável, Deus não pode agir. Sabemos, entretanto, que Deus é imutável e também que Ele age; por isso, as duas coisas devem ser compatíveis.
As Escrituras ensinam a imutabilidade de Deus. Tiago diz que Ele é "o Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança" (Tiago 1: 17). Malaquias mostra Deus dizendo: "Porque eu, o Senhor, não mudo" (Ml. 3: 6). Veja também SI. 33: 11; 102: 26, 27; cf. Hb. l: 12. Ele não muda com relação a Seu po¬der (Rm.4: 20, 21), Seus planos e propósitos (Is. 46: 10; Rm. 11: 29), Suas promes¬sas (I Reis 8: 56; II Co. 1:20), Seu amor e misericórdia (SI. 103: 17; Ml. 3: 6), e Sua justiça (Gn. 18:25; Is. 28:17).
Como, então, harmonizaremos as Escrituras que dizem que Deus não se arrepen¬de (por ex. Nm. 23:19; I Sm. 15: 29; SI. 110:4) com outras passagens que O mos¬tram se arrependendo (por ex. Gn.6:6; Ex. 32:14; II Sm. 24: 16)'? Da seguinte maneira: A imutabilidade de Deus não é como a da pedra que não reage às mudan¬ças à sua volta, mas como a de uma coluna de mercúrio que sobe e desce conforme mudanças na temperatura. Sua imutabilidade consiste em sempre fazer o que é certo e em adaptar o tratamento de suas criaturas às variações de seu caráter e conduta. Deus diz: "Se a tal nação se converter da maldade contra a qual Eu falei, também Eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe" (Jr. 18: 8; cf. Joel 2: 13). Em outras palavras, as ameaças de Deus são às vezes de natureza condicional, como quando Ele ameaçou destruir Israel (Êx. 32:9, 10, 14) e Nínive (Jonas 1:2; 3:4,10).
B. Os Atributos Morais
Com atributos morais de Deus queremos nos referir aos predicados necessários da divina essência que envolvem qualidades morais. Sob este tópico consideraremos a santidade, retidao e justiça, bondade e verdade de Deus. A soberania não é um atri¬buto mas sim uma prerrogativa de Deus advinda da perfeição da Sua natureza. Não será, portanto, tratada em conexão com os atributos, rnas em um capítulo separado (Capítulo XII) sob o título: "A Obra de Deus: Seu Governo Soberano". Vamos ago¬ra proceder a um estudo breve de cada um dos atributos morais.
1. Santidade. Com santidade de Deus queremos dizer que Ele é absolutamente separado de todas as Suas criaturas e exaltado sobre elas, e que Ele é igualmente sepa¬rado da iniquidade moral e do pecado. Se tomarmos o primeiro sentido. Sua santida¬de não é realmente um atributo que possa ser coordenado junto aos outros atributos, mas é antes co-existente com todos eles. Ela denota 3 perfeição de Deus em tudo que Ele é. No segundo sentido, ela é vista como a conformidade eterna de Seu ser com Sua vontade. Em Deus temos pureza de ser antes de pureza de vontade. Deus não deseja o bem porque Ele é bom, nem é o bem bom porque Deus assim o deseja; do con¬trário haveria um bem acima de Deus ou o bem seria arbitrário e mutável. Ao invés disso, a vontade de Deus é a expressão de Sua natureza que e santa.
A santidade ocupa o primeiro lugar entre os atributos de Deus. Ë o atributo pelo qual Deus queria especialmente ser conhecido nos tempos do Velho Testamento. Veja Lv.H:44,45; Js. 24: 19; ISm.ó:20; SI. 22:3; Is. 40: 23; Ez.39:7; Hab. 1:12. Ë enfatizada pêlos limites demarcados ao redor do Monte Sinai quando Deus desceu até a montanha (Êx. 19:12, 13, 21-25), pela divisão do tabernáculo e do templo em lugares santos e santos dos santos (Ëx. 26: 33; I Reis 6:16), pelas ofertas prescritas que deveriam ser trazidas por um israelita que desejasse se aproximai de Deus (Lv. 1-7), pela instituição de uni sacerdócio especial para servir de mediador entre Deus e o povo (Lv. 8-10), pelas muitas leis a respeito de impureza (Lv. 11-15), peias fes¬tas estabelecidas de Israel (Lv. 23), e pelo isolamento de Israel na Palestina (Nm, 23: 9; Dt. 33: 28). No Novo Testamento, santidade é atribuída a Deus com menos fre¬quência do que no Velho, mas não está inteiramente ausente. Veja João 17:11; Hb. 12: 10; I Pé. 1: 15, 16; Ap.4: 8. Devido a natureza fundamental deste atributo, a santidade de Deus deveria ser considerada mais do que Seu amor, poder e vontade. Santidade é o princípio regulador desses três; pois Seu trono é estabelecido com base em Sua santidade (SI. 47: 8; 89:14; 97:2).
=> Deveríamos aprender três coisas importantes pelo fato de Deus ser santo. A pri¬meira é que existe um abismo entre Deus e o pecador (Is. 59: l, 2; Hab, 1: 13j. NSo apenas está o pecador separado de Deus, mas Deus está separado do pecador. Antes do advento do pecado, o homem e Deus tinham comunhão um com o outro; agora, essa comunhão está quebrada e se tornou impossível. A segunda coisa é que o homem tem que se aproximar de Deus pêlos méritos de um outro, se é que ele jamais vai con¬seguir se aproximar de Deus novamente. O homem nem possui nem pode adquirir a necessária ausência de pecado para ter acesso a Deus. Mas Cristo veio e tornou esse aoessu possível (Rui. 5: 2; Ef. 2: 18; Hb. 10: 19-20). Na santidade de Deus está a razSo para a expiação; e o que Sua santidade exigiu, Seu amor providenciou (I Pé. 3: 18). ,A__ tergeir,a_ coisa e' a de que devemos nos aproximar de Deus "com reverência e santo temor" (Hb. 12: 28, 29). Opiniões certas da santidade de Deus levam a opiniões certas a respeito do pecado. Jó (40:3-5) e Isaías (6: 5-7) são exemplos notáveis da relação entre os dois. Humilhação, contrição e confissão brotam de uma visSo bíbli¬ca da santidade de Deus.
2. Retidão e Justiça. Por retidSb e justiça de Deus queremos indicar aquela fase da santidade de Deus que é vista em Seu tratamento da criatura. Repetidamente são essas qualidades atribuídas a Deus (por ex. II Cr. 12: 6; Esdras 9:15; Ne. 9: 33; SI. 89:14; Is.45:21, Dn. 9:14; JoSol7:25; II Tm. 4:8; Ap. 16:5). Em virtude da primeira. Ele instituiu um governo moral no mundo, impôs leis justas às Suas criatu¬ras, e anexou sanções a elas. Em virtude das últimas, Ele executa Suas leis, envolven¬do a concessão de recompensas e_castigos. A distribuição de recompensas é também chamada de justiça remunerativa, e é mencionada nas Escrituras nas seguintes passa¬gens: D:. 7: 9, 12, 13; II Cr. 6:15; 51.58:11; Mt.25:21; Rm.2:7; Hb.11:26. O ato de infringir castigo é também chamado de justiça punitiva, e é mencionada em passagens como as que se seguem: Gn.2:17; Ex.34:7; Ez. 18:4; Rm. l: 32- 2-8, 9; II Ts. 1:8.
diz:
Existe, porém, uma diferença entre "mérito remunerativo e reíributivo". Shedd
A justiça divina é originalmente e necessariamente obrigada a castigar a deso¬bediência, mas nSo a recompensar a obediência . . . Deus não pode estabelecer uma lei, fixar uma pena, ameaçar aplicá-la e parar por aí, no caso de desobediên¬cia. A veracidade divina proíbe isto ... Assim, em todo caso de transgressão, a pena da lei deve ser aplicada, ou pessoalmente ou vicariamente; ou sobre o trans¬gressor ou sobre o seu substituto ... A justiça pode permitir a substituição de uma pessoa por outra, contanto que na substituição não seja feita nenhuma injustiça
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aos direitos de qualquer das partes envolvidas. Op. cit., I, 370-373.
Em outras palavras, a justiça exige o castigo do pecador, mas pode também aceitar o sacrifício vicário de outrém, como no caso de Cristo.
3. Bondade. No sentido mais amplo do termo, a bondade de Deus inclui todas as qualidades que respondem ao nosso conceito de um personagem ideal; isto é, inclui qualidades como Sua santidade, retidão e verdade, bem como Seu amor, benevolência, misericórdia e graça. É provavelmente neste sentido mais ampïo que Jesus disse ao jovem rico: "Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um só, que é Deus" (Mc, 10:18). No sentido mais restrito, entretanto, o termo é limitado às quatro úl¬timas qualidades citadas. Vamos examinar os elementos que compõem este conceito mais restrito do termo.
"""-/' (1) O Amor de Deus. Com amor de Deus queremos indicar aquela perfeição da natureza divina pela qual Ele é continuamente impelido a Se comunicar. É, entretan¬to, nSo apenas um impulso emocional, mas uma afeição racional e voluntária, sendo fundamentada na verdade e santidade e no exercício da livre escolha. Este amor en¬contra seus objetos primários nas diversas pessoas da trindade. Assim, o universo e o homem são desnecessários para o exercício do amor de Deus. Os filósofos frequente¬mente negam que Deus possua sentimentos, dizendo que sentimento implica em pas¬sividade e suscetibilidade a impressão externa, e que tal possibilidade e' incompatível com a ideia da imutabilidade de Deus. Mas imutabilidade n3o significa imobilidade. O amor verdadeiro envolve necessariamente sentimento, e se não houver sentimento em Deus, então o amor de Deus não existe.
As Escrituras frequentemente testemunham a respeito do amor de Deus. Elas falam dEle como "o Deus de amor" (II Co. 13: 11) e declaram que Ele é "amor" (I João 4: 8, 16). Amar faz parte da Sua natureza. Ele está em contraste com os deuses dos pagãos que odeiam e se zangam; e com o deus do filósofo que é frio e indiferente. O Pai ama ao Filho (Mt. 3:16) e o Filho ama ao Pai (João 14: 31). Diz-se que Deus ama ao mundo (João 3: 16), Seu antigo povo Israel (Dt. 7: 6-8, 13), e Seus verdadeiros filhos (João 14: 23). Ele também ama a retidSo(Sl. 11: 7) e o juízo (Is. 61: 8). Estas coisas são tão conhecidas que não precisamos enfatizá-las. Examinaremos agora as
* manifestações especiais do Seu amor.
*"" (2) A Benevolência de Deus. Por benevolência de Deus queremos dizer aquela afeição que Ele sente e manifesta para com Suas criaturas sensíveis e racionais. Ela resulta do fato de que a criatura é obra Sua; Ele não pode odiar qualquer coisa que tenha feito (Jó 14: 5), apenas aquilo que foi acrescentado à Sua obra. O pecado é es¬se tipo de acréscimo. A benevolência de Deus é manifestada em Seu cuidado com o bem estar da criatura, e é moldada às suas necessidades e capacidades. "O Senhor é bom para todos;e as Suas ternas misericórdias permeiam todas as Suas obras . . . Abres a Tua mão e satisfazes de benevolência a todo vivente" (SI. 145: 9, 15, 16). Veja tam¬bém Jó 38:41; SI.36:3; 104:21; Mt. 6: 26. Ela também se estende aos homens, assim como: "Não Se deixou ficar sem testemunho de Si mesmo" (Atos 14: 17); mes¬mo a homens pecadores: "... Ele faz nascer o Seu sol sobre maus e bons, e vir chu¬vas sobre justos e injustos" (Mt. 5:45).
(3) A Misericórdia de Deus. Com misericórdia de Deus queremos dizer Sua bon¬dade manifestada para com aqueles que estão em miséria ou aflição. Compaixão, pena e amorosa benignidade s5o outros termos da Ejcritura que denotam praticamente a mesma coisa. A misericórdia é uma qualidade eterna e necessária em Deus como um ser absolutamente perfeito; mas o exercício dela em uma dada instância é opcional. Negar a Uberdade da misericórdia é aniquilá-la; pois se é uma questão de ser devida, então não é mais misericórdia. Ela requer uma revelação especial antes de podermos dizer que será exercida em um caso específico. As Escrituras mostram Deus como .sendo "rico em misericórdia" (Ef. 2:4) e "cheio de terna misericórdia, e compassi¬vo" (Tiago 5:11). Diz-se que Ele e' misericordioso para com Israel (SI. 102:13), para com os gentios (Rm. 11: 30,31) e para com todos os que O temem (Êx. 20: 2; Lucas 1: 50) e buscam Sua salvação (Is. 55: 7; Lucas 1: 72).
3>- (4) A Graça de Deus. Com graça de Deus queremos falar da bondade de Deus manifesta para com os imerecedores. A graça diz respeito ao pecador como culpado, enquanto que a misericórida diz respeito a ele como miserável. O exercício da graça, como o da misericórdia, e opcional da parte de Deus. Ele tem que ser santo em todas suas ações; Ele pode ou não mostrar graça a um pecador culpado. Apenas por meio de uma revelação especial podemos saber se a graça será manifestada ou não, e, no caso afirmativo, em que circunstâncias isso se dará. As Escrituras mostram que a graça de Deus é manifestada para com o homem natural: (a) Em Sua paciência e longanimi¬dade, Sua demora em castigar o pecado (Éx. 34; 6; Rm. 2:4,5; 3:25; 9:22; I Pé. 3: 20; II Pé. 3: 9, 15) e (b) em Sua providência da salvação, da Palavra de Deus, a obra do Espírito convencendo do pecado, as influências do povo de Deus, a graça pré-via (l Jo3o2:2; Oséias8:12; João 16: 8-11; Mt. 5: 13, 14; Tito 2: U). Esta é a graça universal de Deus.
Elas também mostram que Sua graça é especialmente manifestada para aqueles que respondem à Sua graça prévia: (a) Em sua eleiçïo e predestinação (Ef. 1:4-6), (b) sua redenção (Ef. l: 7-8), (c) sua salvação (Atos 18: 27), (d) sua santificação (Rm. 5:21; Tito 2: 11, 12), (e) sua preservação (II Co. 12:9), (f) seu serviço (Hb. 12:28), e (g) em sua apresentação final (I Pé. l: 13). Isto é a graça especial de Deus.
C 4. Verdade. Com verdade de Deus queremos dizer que o conhecimento, declara¬ções e representações de Deus se conformam eternamente com a realidade. A verdade deJDeus é não apenas a fundação de toda a religião, mas também de todo conheci¬mento. A convicção de que nossos sentidos não nos enganam, de que a consciência e digna de confiança, de que as coisas são o que parecem ser, e que nossa própria exis¬tência não é simplesmente um sonho, se baseia em última instância na verdade de Deus, isto é, de que vivemos em urn mundo que é verdadeiro. Muitos filósofos ainda perguntam, como Pilatos: "Que é a verdade?" (João 18: 38). Wm. James se desespe¬rou de descobrir a verdade absoluta, Outros afirmam que o que o termo significa é meramente a uniformidade da lei natural. Eles afirmam que a eficiência de Deus é necessariamente e sempre exercida de modo a podermos confiar na sequência regular dos eventos; em outras palavras, que não ha diferença entre propósito e ato em Deus. Mas tanto nossa natureza quanto a Escritura ensinam que Deus é verdadeiro. So¬mos forçados a acreditar que a lei natural tem um Legislador pessoal: tanto a regulari¬dade das leis da natureza como seu evidente propósito testificam acerca de um autor inteligente. As Escrituras declaram que Ele é "o único Deus verdadeiro" (João 17:3). João diz: "... este é o verdadeiro Deus" (I João 5: 20). A palavra grega usada aqui significa genuíno, real. Veja também Jr. 10: 10; João 3: 33; Rm. 3:4; I Ts. 1:9; Ap. 6: 10. Ao exercê-la para com a criatura, a verdade de Deus é conhecida como Sua veracidade e fidelidade. Sua veracidade se relaciona com o que Ele revelou sobre Si próprio e com o que Ele diz. Suas revelações sobre Si mesmo na natureza, na cons-
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ciência, e nas Escrituras são verdadeiras e pode-se confiar nelas. Veja SI. 31:5; Jr. 5: 3; João 3: 33; Rm. 3:4; Hb.6:18. Sua ^Jeiidade O leva a cumprir todas Suas pro¬messas, quer expressas em palavras ou subentendidas na constituição que Ele nos deu. Veja Dt. 7:9; SI. 36:5; Is. 25:1; I Co. 1:9.
Mas como vamos conciliar a veracidade de Deus com a aparente não-execução de algumas de Suas ameaças? Resposta: As promessas e ameaças de Deus são sempre cumpridas literalmente se forem absolutas; mas se forem condicionais, seu cumprimen¬to dependerá da obediência ou arrependimento das pessoas envolvidas. A condição pode ser expressa ou subentendida, e não há quebra na fidelidade de Deus se devido ã desobediência ou impeniténcia por parte do homem Deus não cumpre Suas promes¬sas. E, são os convites e exortações aos pecadores que vão eventualmente se perder, sinceros? Resposta: Como os convites são feitos sob condições praticáveis, e n3o exis¬te obstáculo à sua aceitação exceto a vontade do homem, não podemos duvidar da sinceridade de Deus ao fazé-los. Deus sabia com antecedência que Israel se recusaria a entrar em Canaã por Cades-Barnéia, mas isso não O impediu de sinceramente instar com Seu povo para que fizesse isso (Dt. 1: 19-33). Assim a veracidade e a fidelidade de Deus permanecem irrepreensíveis.

CAPlYULO IX
A Natureza de Deus: Unidade e Trindade
Temos agora de tratar de duas coisas que também são inerentes à natureza de Deus, as quais, por sua natureza e importância fundamentais, requerem tratamento separa¬do. São elas a unidade de Deus e a trindade de Deus.
I. A Unidade de Deus
Com unidade de Deus queremos dizer que só há um Deus e que a natureza divina é uma unidade indivisível. O fato de haver um só Deus é o tema principal do Velho Testamento (Üt. 4: 35, 39; l Reis 8: 60; Is. 45: 5, 6, etc.; Zc. 14: 9); mas a mesma verdade é tambe'm frequentemente ensinada no Novo Testamento (Marcos 12: 29-32; Joa~o 17:3; I Co. 8:4-6; l Tm. 2: 5). Isto foi necessário devido à persistente tendên¬cia de Israel para a idolatria. O politeísmo é uma tentativa da parte do homem peca¬minoso de se livrar da responsabilidade, hipostatizando as várias atividades de Deus e as atribuindo a vontades separadas. Mas, de acordo com as Escrituras, Deus é não apenas um, mas Ele é o único. Só pode haver um ser infinito e perfeito. Até mesmo o politeísmo não pode descansar na crença em muitos deuses; pois os gregos acredita¬vam em um Destino supremo que governava tanto homens corno deuses.
Que a natureza divina é uma unidade indivisível é insinuado em Dt. 6:4: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus e' o único Senhor" (cf. Marcos 12: 29). Isto é, Deus na"o consiste de partes nem pode ser dividido em partes. Seu ser é simples; o do homem é composto, tendo tanto uma parte material como uma imaterial. Mas Deus é espí¬rito e não é passível de tal divisão. Esta unidade, entretanto, não é inconsistente com o conceito da trindade; pois uma unidade não é o mesmo que uma única coisa isolada¬mente. Como diz Shedd: "Uma coisa única, como uma pedra ou um pauzinho, e' marcada por simples unicidade. Não admite distinções interiores, e é incapaz de pos¬suir aquela trindade inerente que é necessária ao auto-conhecimento e auto-conscjén-cia". Op. cit., I, 254 segs.
A incapacidade de entender as distinções acima mencionadas impediu os judeus de aceitarem a doutrina cristã da divindade de Cristo e da Trindade. Os ebionitas, uma seita judaica que apareceu no começo do segundo século, professavam ter fé em Jesus Cristo; mas O consideravam corno um simples homem que havia recebido um dom sobrenatural quando do Seu baíismo. A crença em Sua divindade lhes parecia. incompatível com a doutrina do monoteísmo. Os maometanos, socinianos e unitaria-nos modernos deixam igualmente de reconhecer esta distinção e assim consideram Deus como um ser único isolado ao invés de uma unidade.
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n. A Trindade de Deus
A doutrina da Trindade não é uma verdade da teologia natural, mas sim da reve¬lação. Strong diz: "A razão nos mostra a Unidade de Deus; apenas a revelação nos mostra a trindade de Deus". Op. cit., pág. 304. O mundo antigo tinha suas Tríades, mas eram apenas distinções místicas e teológicas em seu panteão de deuses. Todas essas noções n3o têm analogia com a doutrina bíblica da Trindade; nem servem tampou¬co para explicá-la ou confirmá-la. Apesar da doutrina da Trindade não poder ser desco¬berta pela razão humana, ela é passível de uma defesa racional agora que foi revelada.
A palavra "Trindade" em si não ocorre na Bíblia. Sua forma grega, Trias, parece ter sido usada primeiro por Teófilo de Antioquia fm. 181 A.D.), e sua forma latina, Trinitas, por Tertuliano (m. em torno de 220 A.D,). Entretanto, a crença na Trin¬dade é muito mais antiga que isso, como mostraremos presentemente. Com Trindade queremos dizer que ha' três distinções eternas em uma essência divina, conhecidas respectivamente como Pai, Filho e Espírito Santo. Estas três distinções são três pes¬soas, e assim podemos falar da tripérsonalidade de Deus. O Credo Atanasiano expressa a crença trinitariana da seguinte maneira: "Adoramos um Deus em trindade, e trinda¬de em unidade, sem confundir as pessoas, sem separar a substância".
A doutrina da Trindade deve ser assim diferenciada tanto do triteísmo como do sabelianismo. O triteísmo nega a unidade da essência de Deus e afirma que há três Deuses distintos. A única unidade que reconhece é a de propósito e esforço. Mas já demonstramos que Deus é uma unidade de essência bem como de propósito e esforço. O sabelianismo (terceiro século) afirmava uma Trindade de revelação, mas não de na¬tureza. Deus, afirmava, como Pai, é o Criador e o Legislador; como Filho, Ele é o mes¬mo Deus encarnado que cumpre a tarefa de Redentor; e como Espírito Santo, Ele é o mesmo Deus na obra de regeneração e santificação. Isto é, ele ensinava uma Trin¬dade moda], diferente da Trindade ontológica. Lyman Abbott fala de uma natureza tríplice de Deus da mesma maneira que uma pessoa pode ser artista, professora e ami¬ga. Mas isto é, na realidade, uma negação da doutrina da Trindade, pois estas não sSo três distinções na essência, mas três qualidades da mesma pessoa.
Sabemos que a doutrina da Trindade é um grande mistério. Algumas pessoas a consideram um quebra-cabeças intelectual e uma contradição. Como pode haver, nos perguntam, um só Deus e, ao mesmo tempo, três pessoas na Divindade? Mas Flint o diz muito bem: "é verdadeiramente um mistério; no entanto é um mistério que expli¬ca muitos outros mistérios, e que esclarece maravilhosamente a Deus, a natureza e o homem". Robt. Flint, Anti-Theistic Theories (Teorias Anti-Teísticas) (Edinburgh: Wm. Blackwood and Sons, 1899), pág. 439. A opinião que se tem dessa doutrina afeta todas as outras partes da crença teológica da pessoa e da religião prática. A dou¬trina é, portanto, não apenas um ónus sobre nossa credulidade, mas uma necessidade prática para uma visão verdadeira do mundo e da vida. Ate' a filosofia tem tido difi¬culdade com o conceito de Deus como uma unidade absoluta. Na teoria dos eleáticos, eia acabou transformando o mundo em uma ilusão, um não-ser. Platão achou neces¬sário acrescentar a ideia de Um na multiplicidade. E os estóicos e Filo contribuíram com a ideia do Logos.
Mas, como já dissemos, a doutrina crista" da Trindade não é, na realidade, um fruto da especulação, mas da revelação. Na"o poderíamos saber a respeito desta auto-distin-ção na Divindade se Deus na"o houvesse assim Se revelado. Devemos, portanto, buscar nas Escrituras a verdadeira doutrina da Trindadft. Consideraremos primeiro as insinuacoes que aparecem no Velho Testamento, depois apresentaremos os ensinamentos do Novo Testamento e concluiremos com. algumas observações e deduções baseadas nes¬tes materiais.
l. Insinuações no Velho Testamento. Apesar do grande tema do Velho Testamen¬to ser, como já dissemos, a unidade de Deus, não deixam de aparecer ali numerosas insinuações acerca de uma pluralidade na Divindade, e algumas indicações que esta pluralidade é uma trindade. Quanto às insinuações de uma pluralidade, podemos men¬cionar os nomes e pronomes no plural que se aplicam a Deus, como em Gn. 1:1, 26; 3:22; 11: 6, 7;. 20: 13; 48:15; Is. 6: 8. Nota-se que, apesar do fato de que em Gn. 1:1,26; 48: 15,16o nome dado a Deus estar no plural (Elohím), o verbo está no sin¬gular. Hughes mostra que, como o verbo "vinde" (LXX deute, Vuigata, venite) em Gn. 1Í: 7 está no plural, deve estar sendo endereçado a pelo menos duas outras pes¬soas. Estas dificilmente poderiam ser os anjos, pois aos anjos Deus envia, mas nunca age em conjunto com eles, Philip E. Hughes, "Vestigia Trinitatis", conforme publi¬cado no The Evangelical Quarterly XVI, (Outubro, 1944), pág. 262. Tampouco e Gn. l: 26 dirigido a anjos, pois no versículo seguinte lemos que "Deus criou o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus o criou".
Indicações mais definidas de que esta pluralidade é uma trindade são encontradas nos seguintes fatos: (1) Existe distinção entre o Senhor e o Senhor. Em Génesis 19: 24, lemos: "Então fez o Senhor chover enxofre e fogo, da parte do Senhor, sobre Sodoma e Gomorra"; e em Oséias 1:7: "Porém da casa de Judá me compadecerei, e os salvarei pelo Senhor seu Deus". Cf. II Tm. 1: 18. (2) O Senhor tem um filho. No SI, 2: 7, lemos: "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei". "Hoje" aqui significa o eter¬no presente; refere-se à eterna geração do Filho por parte do Pai. Jesus é chamado não apenas de Filho de Deus (João 9: 35; Rm. l: 4), mas também de Filho unigénito (João 3:16, 18) e de Filho primogénito (Hb. 1: 6). Mas Ele já era filho antes de ter sido "dado" (Is. 9: 6); pois Suas "origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eter¬nidade" (Mq. 5: 2); e Ele é chamado "Deus poderoso" (Is. 9: 6). (3) Existe distinção entre o Espírito e Deus. Em Gn. 1:1, lemos: "No princípio, criou Deus os céus e a terra", e no versículo 2: "O Espírito de Deus pairava por sobre as águas". Em Gn. 6: 3: "Então disse o Senhor: O meu Espírito não agirá para sempre no homem". Para exemplos adicionais desta distinção, veja Nm.27:18; 51.51:11; Is. 40:13; 48: 16; Ageu2:4, 5. (4) As trisagias da Escritura parecem insinuar uma Trindade. Em Is. 6: 3, os serafins clamavam uns para os outros: "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos". Cf. Ap. 4:8. (5) A Bênção Arònica parece insinuar a mesma coisa (Nm. ó: 24-26). Ela diz: "O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplande¬cer o Seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o Seu rosto, e te dê a paz". Deve-se observar que, embora esta seja uma benção, é um só o Deus que abençoa. Isto é evidenciado pelo próximo versículo que diz: "Assim porão o Meu nome sobre os filhos de Israel, e Eu os abençoarei".
Atenção especial deveria ser devotada à frase que aparece frequentemente no Ve¬lho Testamento: "o anjo do Senhor". Strong diz que ela "parece, no Velho Testa¬mento, com pouco além de uma única exceção, designar o Logos pré-encarnado, cuja manifestação em forma engélica ou humana fazia prever a hora em que finalmente viria na carne". Ele encontra a única exceção em Ageu 1: 13, onde o próprio Ageu e o "mensageiro" (a mesma palavra que "anjo") do Senhor. Op. dt., pág. 319. Como "o anjo do Senhor" Ele apareceu a Hagar (Gn. 16: 7-14), a Abraão (Gn. 22: 11-18),
a Jacó(Gn. 31:11, 13), a Moisés (Êx. 3: 2-5), a Israel (Êx. 14:19;cf. 23: 20; 32:34), a Balaão (Nm. 22:22-35), a Gideão (Juizes 6:11-23), a Manoá (Juizes 13: 2-25), a Davi (I Cr. 21: 15-17), a Elias ( Reis 19: 5-7); He-feriu de morte 185.000 assírios em uma noite (II Reis 19: 35); Ele se colocou entre as murteiras na visão de Zacarias (Zc. l: 11); e Ele defendeu Josué, o sumo sacerdote, contra Satanás (Zc. 3: l e seg.). Em Gn. 18, um dos três "homens" que apareceram a Abraão é repetidamente apresenta¬do como o Senhor (vs. 13, 17, 20, 22-33).
2. O Ensinamento do Novo Testamento. Como já vimos, no Velho Testamento estamos mais ou menos confinados a insinuações da Trindade; mas quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos esta doutrina claramente apresentada — não que esteja aí definitivamente formulada, mas está apresentada tão claramente que pode ser facilmente formulada. Podemos apresentar a prova disto de duas maneiras: Através de declarações e alusões gerais e através da prova de que há três que são reconhecidos como Deus.
(1) Declarações e Alusões Gerais. Encontramo-las primeiro em conexão com a cena do batisrno de Cristo. O Senhor Jesus estava, é claro, presente; mas notamos também que o Espírito desceu sobre Ele, e que uma voz veio dos céus, dizendo: "Este é o Meu Filho amado" (Mt. 3: 16, 17). Em segundo lugar, na declaração de Jesus de que Ele oraria ao Pai para lhes dar outro Consolador (João 14: 16,17). Em terceiro lugar, na fórmula batismal, que requeria que os discípulos batizassem em nome (singu¬lar) do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt. 28:19). Em quarto lugar, na maneira pela qual o Pai, o Filho e o Espírito estão associados em Sua obra (I Co. 12:4-6; I Pé. 1:2; 3: 18). E em quinto lugar, na bênção apostólica, pela qual invocamos a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo (II Co, 13: 13),
sobre as pessoas.
(2) Prova de que há três que são Reconhecidos como Deus. Há, é claro, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Vamos observar a prova desta afirmação.
(a) O Pai é reconhecido como Deus. Isto é feito com tanta frequência que não precisamos apresentar uma lista completa de referências. Observe, entretanto, as se¬guintes amostras: "Porque Deus, o Pai, confirmou com o seu selo" (João 6: 27); "de Deus nosso Pai" (Rm. 1: 7, etc., etc.); Deus Pai (Gl. 1:1,3) e muitas outras ex¬pressões semelhantes.
(b) O Filho e reconhecido como Deus. A importância da doutrina da divindade de Cristo não pode ser nunca sobrestimada. Jesus Cristo não mantém com o cristianis¬mo o mesmo tipo de relação que outros fundadores de religiões mantêm paia com a fé que deram origem. Buda (563484 A.C.), Confúcio (551478), e Maomé (570?-632 A.D.) são significativos principalmente pêlos seus ensinamentos; mas Jesus Cristo é significativo principalmente por Sua pessoa. Ele é realmente central ao cristianismo. O próprio Jesus Se via desta forma. Ele perguntou: "Que pensais vós do Cristo?" (Mt. 22:41-46; Marcos 12: 35-37; Lucas 20: 41-44). Ele havia perguntado antes aos discípulos: "Mas vós ... quem dizeis que eu sou?'1 (Mt. 16:15). Foi Ele simplesmen¬te a maior, a mais santa, a mais perfeita amostra do divino na humanidade, o homem arquetipico, a fina flor da raça, o mestre por excelência? Os escritores sacros certamen¬te o apresentam como sendo tudo isto e muito mais. De acordo com eles, Ele tinha:
a. Os Atributos de Divindade. Atributos divinos são atribuídos a Ele ô manifes¬tados por Ele. Há cinco atributos distintamente divinos. São: eternidade, onipresença, onisciéncia, onipotència e imutabilidade. Cristo possue todos eles. Ele é eterno. Existia já não só antes de João (Joâ"o l: 15), de Abraão (João 8; 58) e antes do mundo pas¬sar a existir (JoSo 17: 5, 24); mas é "o primogénito de toda a criação" (Cl. l: 15), exis¬tindo "no princípio" (João 1:1; I João 1: 1); e, na realidade, "desde a eternidade" (Mq.5:2). E quanto ao futuro, Ele continua para sempre (Hb. 1:11; Is.9:6; Ap. 1:11), A comunicação de vida que o Pai faz a Ele é um processo eterno (João 5' 26-1:4).
Ele é onipresente e onisciente. Ele estava no céu enquanto esteve na terra (João 3:13), e está na terra enquanto está no céu (Mt. 18: 20; 28: 20). Ele está em todos (Ef. 1: 2. 3). Quanto à Sua onisciéncia, lemos que Ele conhece todas as coisas (JoSo 16:30; 21:17). Ele conhecia o que havia no homem (João 2:24, 25). Ele viu a Nata-nael debaixo da figueira (Joâ"o l: 49); Ele conhecia a história da mulher Samariíana (João 4: 29), os pensamentos dos homens (Lucas 6: 8; cf. II: 17), a hora e o modo como deixaria este mundo (Mt. 16:21; João 12: 33; 13:1), aquele que O iria trair (Joio 6: 66), a natureza e o término garantido da era presente (Mt. 24: 25), o Pai(Mt. 11: 27); e "em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos" (Cl. 2: 3). Em Marcos 13: 32 é dito que Ele não sabe o dia de Sua volta. Baseando-se nessa declaração, muitas pessoas diriam que Ele também ignorava outras coisas. Mas temos que nos lembrar que, embora Ele tivesse os atributos de divindade, havia aberto mão do direito de exercê-los independentemente. Ele foi até uma figueira para "ver se nela, porventura, acharia alguma coisa" (Marcos 11:13);admirou-se da incredulida¬de deles (Marcos 6: 6). Tudo isto advém do fato de que o Pai n2o Lhe permitiu usar Seus atributos divinos nestes casos. Mas Ele agora sabe, sem dúvida alguma, a hora em que vai voltar.
Ele é onipotente, Jesus disse: "Eu sou o todo poderoso" (Ap. 1:8), e "o Filho nada pode fazer de Si mesmo, senïo aquilo que vir fazer o Pai;porque tudo que Este fizer, o Filho também semelhantemente o faz" (JoSo 5:19). Ele sustenta todas as coisas coma palavra do Seu poder (Hb. l: 3); toda autoridade Lhe é dada (Mt. 28:18). Ele tinha poder sobre demónios (Marcos 5: 11-15), moléstias (Lucas 4: 38-41), morte (Mt.9:25; Lucas?: 14, 15; João 11:43,44), os elementos (Mt. 8: 26, 27), a natureza (João 2: 11; Mt. 21: 19), e todas as coisas (Mt. 28: 18; Ap. 1:8). Se se protestar que Cnsto fez Seus milagres através do Espírito (Mt. 12:28), replicaremos que, não obstan¬te, eles são frequentemente citados como provas de Sua divindade (Jo3o 5:36; 10: 25, 38; cf. 20:30,31).
Ele é também imutável (Hb. 13:8; 1:12). Isto é verdade quanto a Seus planos, promessas e pessoa. Mas isto não impede a possibilidade de uma variedade de mani¬festações de Sua parte, nem de uma restrição de algumas de Suas instruções e propó¬sitos para eras e pessoas específicas.
b. Os Cargos da Divindade. Ele é o Criador (Hb. 1:10; Joâol:3; Cl. 1:16), o Sustentador (Cl. 1:17; Hb. l: 3). Nem acidente nem meras leis naturais mantém o universo em existência, e tudo que nele existe em seu lugar certo, mas sim a palavra de Cristo.
c. As Prerrogativas da Divindade. Ele perdoa pecados (Mt. 9: 2, 6; Lucas 7: 47; Marcos 2: 7). Nenhum dos discípulos, nem mesmo Pedro, dizia ter autoridade para tanto (cf. Mt. 16: 19; 18:18; João 20:23 com Uoão 1:9; Atos 8:20, 22). Ele res¬suscitará os mortos (João 20: 25, 28; 6:39,40,54; 11:25). Esta ressurreição futura dos mortos será diferente das três de quando Ele estava aqui na terra, pois no futuro todos serão ressuscitados, serão ressuscitados tanto da decomposição como da morte,
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serão ressuscitados para nunca mais verem a morte, e serSo ressuscitados mais pelo po¬der inerente de Cristo do que pelo poder do Espirito. E finalmente, Ele executará todo o julgamento (João 5: 22): o dos crentes (II Co. 5:10; Rm. 14:10), o do Anti-cristo e seus seguidores (Ap. 19:15), o das nações (Atos 17:31; Mt. 25: 31,32), o de Satanás (Gn.3:15), e dos ímpios mortos (Atos 10:42; II Tm, 4:1; I Pé. 4:5).
d. Ele foi Identificado com o Senhor do Velho Testamento. As coisas que no Velho Testamento são ditas a respeito do Senhor, são ditas no Novo Testamento a respeito de Cristo. Ele foi o Criador (SI. 102:24-27; Hb. 1:10-12); foi visto por Isaías (Is. 6: 1; João 12:41); seria precedido por um precursor (Is. 40: 3; Mt. 3:3); estaria entre o povo de Deus (Nm. 21: 6, 7; I Co. 10: 9); seria santificado (Is. 8:13; I Pé. 3: 15); e levaria cativo o cativeiro (SI. 68: 18; Ef. 4: 7, 8).
e. Ele Recebe Nornes que Denotam Divindade. Nem todos os nomes usados para se referir a Jesus denotam divindade, Citaremos apenas aqueles que o fazem.
Em primeiro lugar, Jesus usou certas metáforas a Seu próprio respeito que deno¬tam Sua natureza sobrenatural. Por exemplo: "Eu sou o pão que desceu do céu" (João 6:41; cf. v. 50); uEu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será' saivo" (JoSo 10:9); "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (JoSo 14: 6); "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (João 15: 5). Ele usava tam¬bém certas designações a Seu próprio respeito que denotavam divindade; por exemplo; "Eu sou o Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o princípio e o fim" (Ap. 22: 13); e "Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus" (Ap. 3:14).
Em segundo lugar, Mateus expressamente aplica a predição de Is. 7: 14 a Ele, com respeito ao que haveria de nascer de uma virgem, inclusive o nome Emanual pelo qual aquele filho deveria ser conhecido (Mt. l: 22, 23). Este nome ocorre apenas aqui no Novo Testamento e significa "Deus conosco".
Em terceiro lugar, o termo "Palavra" ou "Logos" é usado para enfatizar Sua di¬vindade (João 1:1-5, 9-14; Ap. 19: 13). Apesar de parecer que o termo tenha sido usado primeiro por Heráclito a respeito da razão do mundo, de ter sido apropriado por Platão e pêlos Estóicos, e finalmente levado a teologia judaica por Filo, parece bem claro que João não o tirou de nenhuma destas fontes. Ele definitivamente o tirou da personificação de sabedoria no Velho Testamento e do termo hebraico memra, mas o inundou com o conceito cristão de divindade.
Em quarto lugar, Filho do Homem. Este era o nome favorito de Jesus para Si próprio. Em todas as referências, com exceção de uma, Atos 7: 56, Ele^mesmo usa o termo no Novo Testamento. Currie diz, comentando a respeito de Mt. 12:32: "O Filho do Homem, em Sua humilhação, ocultando Sua natureza divina, aparecendo aos homens como se fosse um deles, pode não ser reconhecido como o que realmente é. Blasfémia contra Ele, portanto, resultando apenas de ignorância e descrença, admite perdão". H.H. Currie, "Os Nomes e Títulos de Cristo", Díctionary of Christ and the Gospels (Dicionário de Cristo e dos Evangelhos), James Hastings, ed., (New York: Charles Scribnefs Sons, 1908), II, 223. O termo nem sempre claramente denota di¬vindade, como é o caso em Mt. 8: 20; 11:18; 19; 17:12; Lucas9:44; mas quase sempre o faz. Por exemplo, é como Filho do Homem que Ele tem autoridade na terra para perdoar pecados (Mt. 9: 6), para interpretar a lei do Sábado (Mt. 12: 8), e para julgar (João 5: 27). Ê como Filho do Homem que Ele dá Sua vida pelo resgate de muitos.









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